Como sempre fazia, Alice se dirigiu ao colégio. O caminho que fazia de sua casa até este já havia se tornado tão comum que ela não era mais capaz de distinguir o tempo que levava para ir de um a outro. Era quase como se seu corpo andasse sozinho e ela pudesse se concentrar em outras coisas. Ver o gato que andava na rua. Ver outras garotas que passavam na rua.
Alice chegou ao quarteirão do colégio e se aproximava da entrada, quando ouviu duas vozes familiares. Eram duas colegas de turma, que estavam sentadas na escada, conversando. Alice entrou na conversa. As meninas falavam de coisas variadas, dentre elas uma festa que ocorreria no final de semana. Alice se esforçou para parecer interessada, mas não conseguia, e só fazia parecer que estava fingindo. Por sorte, as duas perceberam isso, e mudaram de assunto. Começaram a falar de garotos, e Alice sabia fingir bem o interesse nisso.
Os minutos se passavam. As três garotas tinham vontade de faltar aos primeiros horários, que eram de inglês. Todas eram boas em inglês. Alice viu um carro familiar se aproximando do colégio. Era o carro de Clara.
Viu Clara descer do carro, subir as escadas.
Clara foi até Alice:
- Oi, Alice! E aí? O que aconteceu com você esses dias?!
- Eu não estava me sentindo muito bem, Clara.
- Ô, amiga. Eu tentei te ligar, mas não tive tempo. Você foi ao médico?
- Não foi necessário.
- Então você está melhor?
Alice olhou Clara nos olhos. Como era possível alguém ser tão ingênua? Não era maldade de Clara, Alice sabia. Era apenas inocência.
- Não. - Foi a resposta. Seca. Curta.
- Alice, você está tão estranha... o que está acontecendo?
Alice parou por algum tempo. Parecia travar uma enorme batalha em seu interior onde, qualquer que fosse o vencedor, uma parte de si sairia perdendo. Por fim:
- Clara, você quer saber o que está acontecendo, não é? Pois eu vou te contar o que está acontecendo. Eu gosto de você, Clara. E eu não gosto como amiga. Eu realmente gosto de você. E saber sobre você e aquele cara... me... me... me...
Alice não terminou o que tinha para dizer. Não foi preciso. Clara havia entendido tudo.
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