sábado, 26 de junho de 2010

Que sonho...

    Alice abriu os olhos. Se virou e encarou o relógio. Três e vinte e cinco da manhã. "Porra, ainda?" Não queria continuar acordada, queria aproveitar as últimas horas de sono que teria antes das aulas daquele dia. Os minutos passavam. Alice havia deitado às onze horas da noite do dia anterior, e num intervalo de duas horas ficava acordando, ansiosa, e o pior: sem saber o porque disso.
    Finalmente dormiu. Alice sonhava com Clara. Que estavam juntas andando num shopping grande e cheio de pessoas. Estavam indo a um show de uma banda que ambas gostavam, mas não conseguia ver bem qual era. Estavam felizes, e ao chegar no local onde haveria o show descobriram que fora cancelado. Não sabiam porque, mas foram para casa não tão tristes como as outras pessoas, e resolveram fazer outra coisa, como ver TV.
    Neste sonho, Alice tinha vontade de falar para Clara o que sentia de verdade, mas era difícil criar coragem.
    - Alice - disse Clara.
    - Oi?
    - Alice.
    - Clara? O que foi?
    - Alice!
    De repente tudo ficou escuro, e aos poucos clareando. Alice abria os olhos novamente, dessa vez sua mãe havia lhe chamado para tomar o café da manhã e se preparar para a aula.
    - Nossa, que sonho estranho...
    - Que sonho? - Verônica ouviu Alice comentando sobre seu sonho, e ficou curiosa para saber sobre o que era.
    - Ah, nada não mãe.
    - Sei...
    Mais uma manhã normal. Pelo menos o começo da manhã foi.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Fim de Semana em Branco

    Em casa, a sós, Alice refletia sobre seus dias em que passou em Belo Horizonte até aquele momento. Não havia ocorrido nada que considerasse ruim, além de ser atraída por Clara.
    Os minutos passavam e Alice fazia sua lição. De repente lembrou que haveria uma prova de matemática segunda-feira. Após isso, lembrou que teria provas durante todo o mês. Por último, e não menos importante, lembrou que não havia entendido nada da matéria. "Malditos determinantes, vão acabar comigo..." Decidiu estudar, mas a cada momento se distraía com alguma legenda no livro, algo que acontecia em sua rua, fora do prédio, lembrava de algum bombom que havia restado na geladeira. Qualquer coisa parecia ser um bom motivo para afastá-la daquele livro didático. Por fim, assumiu a falta de vontade e foi ver TV até a hora de dormir.

    Sábado.

    Domingo.

    Segunda-feira. Dia da prova. Alice estava estranhamente despreocupada, apesar de não ter estudado. Não se sentia confiante, mas não sentia medo. Estava indiferente. "Oi Alice, você está bem?" - Alice estava encostada numa parede do corredor, de frente para a porta da sala onde seria aplicada a prova. Na verdade, estava encostada em sua mochila, que estava fina por causa da ausência total de livros, que por sua vez estava encostada na parede. Alice imaginava aquilo como um "acolchoamento" para a parede. Enquanto isso, observava os detalhes da porta da sala. Parecia ter a mesma idade que o colégio. Não sabia o quanto, apenas que era antigo. Muito antigo. "An? Estou bem sim, é que estava pensando na prova, e no quanto eu deveria estar preocupada mas não estou" - Respondeu Alice, sem ter certeza do que falava. Afinal, sabia que não estava a pensar na prova. Não estava ligando para aquilo. Mas não se lembrava do que estava pensando. Poucas coisas a faziam se distrair tanto quanto pensar na pessoa em que se gosta, mas costuma-se lembrar disso, e ela não lembrava. "Estranho" - pensou Alice.
     Uma jovem de cerca de 30 anos caminhava pelo corredor usando um salto que fazia um barulho enorme ao pisar no chão. Não era feia, mas não havia despertado atenção de Alice. Em suas mãos estava o pacote com as provas da turma de Alice. Ela abriu a porta da sala e entrou, chamando a todos. Alice entrou também, junto com Clara e suas amigas.

     Era necessário deixar a mochila longe da carteira. Não era possível deixar o estojo com o material à vista. Somente lápis, caneta e borracha poderiam ficar em cima da carteira. "Quem foi o imbecil que inventou essa regra?" - Pensava Alice. - "Qualquer um pode escrever uma cola num pedaço de papel e colocar na manga, ou até mesmo na meia, que incompetência do caralho..." Era assim que Alice pensava. Coisas que são simples de se fazer e não eram bem feitas a deixavam meio chateada e meio irritada. A cada momento que se deparava com situações assim Alice se decepcionava mais com as pessoas.
    Alice e seus colegas se sentaram. Ela era a única garota com o nome começado em A em sua turma. Sentava na primeira carteira. Não haviam chances de colar ou de olhar para o lado. A vigia começou a distribuir as provas. Quando Alice recebe a sua, não consegue acreditar no que vê. Todos os exercícios da primeira página ela julgava saber responder. Mas ela não havia visto os outros.
    Tudo corria bem. Alice, apesar de não ter estudado, estava confiante de que tiraria uma nota boa seguindo aquele ritmo. A confiança estava em alta, até que percebe que a outra metade da prova era muito difícil para uma garota de 16 anos que não havia prestado atenção às aulas e não havia sequer estudado nos últimos dias.

    A manhã inteira foi utilizada para se fazer a prova. No final, Alice saiu desapontada, achava que se sairia bem. Apesar disso, não se sentia mal. Se sentia indiferente. A única coisa que se passava em sua mente era Clara. Alice a imaginava de todas as maneiras, sorrindo para ela. Um sonho. Após essa ideia, só pensava em ir para casa. Ir de encontro à cama e dormir até o dia seguinte.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Fragrâncias do Amor

    A primeira aula do dia começou. Alice, Clara, e seus colegas estavam se sentando enquanto o professor se dirigia para sua mesa. Era uma aula de geografia. Tudo começava normalmente. O professor tentava se lembrar onde havia parado na última aula, e alguém do outro lado da sala respondeu.
    Alice não se importava com a aula de geografia. Era uma das matérias que mais tinha facilidade, apesar de não gostar. Seus colegas viviam perguntando para ela como ela conseguia se sair bem em algo que não gostava, e ela simplesmente respondia que não sabia. No fundo sabia. E achava seus colegas que iam mal na matéria um bando de descerebrados que não sabiam sequer usar uma lógica simples para resolver as questões. Alice chamava essa lógica de Lógica da Religião e Economia. Como o próprio nome diz, a lógica se baseia na religião e na economia envolvidos. Dependendo da matéria um influencia o outro, ou às vezes não. Era simples, na maioria das vezes a questão girava em volta do dinheiro, e às vezes da religião. Alice não conseguia compreender a dificuldade de colocar isso na cabeça, e no final sempre deixava para lá. Tinha mais com o que se preocupar.
    Neste dia Alice decidiu sentar atrás de Clara, por quem já sabia sentir certa atração. E sabia que não iria acontecer nada. Mesmo assim, sentia certo prazer de sentar próximo de Clara, conversar com ela.

    Passou algum tempo. A aula passava rapidamente e Alice estava envolvida de pensamentos aleatórios, que não tinham uma importância para ela. Dentre eles, como a Rússia mantém o domínio sobre toda a área da Sibéria, sendo que não há ninguém lá. Realmente, nada de muito importante ou relevante para ela.

    Alice conseguia sentir o perfume que Clara usava. Estava bem curvada sobre a carteira, como se estivesse pronta para dormir durante a aula. O que não lhe pareceu uma má ideia quando este pensamento veio-lhe à cabeça. Mas preferiu ficar acordada e continuar a sentir aquele cheiro maravilhoso.
     - Ei Clara.
     - Oi - Clara se virou para Alice.
     - Que perfume é esse?
     - Hum, o nome eu não sei direito como pronunciar, mas vou escrever aqui para você. - No momento que acabou de falar, Clara começou a procurar algum pedaço de papel que não estivesse completamente intacto em seu caderno.
     - Aqui, escreve no meu caderno. - Alice já havia pego seu caderno e entregava para Clara.
     Quando Clara devolveu o caderno para Alice, ela pôde ler "egeo dolce for woman". Queria muito aquele perfume, e não para usar. Mas para apreciar aquele cheiro que lhe fazia lembrar da pessoa que gostava de ver. O cheiro parecia carregar pedaços de memória que a faziam lembrar da pessoa. E neste caso, era de Clara.

     Não houve muito mais coisas fora do normal neste dia. Alice lembrou que a festa junina de seu colégio iria ocorrer em menos de três semanas, mas não estava preocupada. Não queria que acontecesse o mesmo que ocorreu entre ela e Mariana. Lembrar disso ainda doía um pouco. Doía pensar em como era. De repente a vontade de comprar aquele perfume desapareceu. Alice pegou seu caderno e viu o nome do perfume escrito numa página e a arrancou, amassou e jogou na rua, que estava molhada pela chuva da noite anterior.
     Finalmente foi para casa. Seguindo o caminho de sempre, mas dessa vez com um olhar vazio para o chão durante todo o percurso. Um olhar que Alice não conseguia ter desde quando ainda morava em Betim.

domingo, 13 de junho de 2010

Manhã Fria

    Era sexta-feira. Alice começou o dia normalmente. Acordou, sentou na cama e refletiu sobre o que queria naquele dia. Sempre algo que não era possível. Tomou seu banho, se arrumou, e seguiu seu caminho até a escola.

    Fazia frio em Belo Horizonte. Os serviços de meteorologia registraram temperaturas de dez graus na capital, temperatura que era fora do comum para seus habitantes, e menos ainda para Alice, que não morava ali desde pequena.

    Alice chegou ao colégio. Passou pelo portão da frente, subiu as escadas. Tudo feito automaticamente. Ao longo do tempo as ações que Alice fazia todos os dias iam se tornando cada vez mais automáticas, dando-a mais tempo para pensar. Isso tinha seu lado bom e seu lado ruim. Infelizmente Alice só pensava no lado ruim, que era o de refletir sobre coisas que não queria. O lado bom, de poder pensar em algo sem ser incomodada, não era nem cogitado por ela.

    Clara foi a primeira amiga que Alice viu quando entrou na sala naquela sexta-feira. Estava sentada numa carteira próxima à janela, num dos cantos da sala. Alice escolheu sentar atrás dela. Queria conversar com Clara. Não era nada sério, e nem sabia por onde começar ou o que falar, mas queria conversar com alguém que gostasse.
    Alice tinha este defeito. Por mais que ficasse chateada ao conversar com uma menina que só fala sobre homens, ela aproveitava esses momentos. Aproveitava a atenção que lhe davam. O simples prazer de conversar, de estar perto, já a satisfazia. O amor que era transmitido para Alice era tão pouco, ou tão diferente, que apenas estar perto e conversar com uma pessoa já a satisfazia. Mas não qualquer pessoa. Alguém que ela gostasse muito.
    - Ei Alice! - Clara disse.
    - Oi Clara. - Alice retribui.
    - Como vão as coisas?
    - Um pouco cansada desse caminho que faço. É meio chato fazer o mesmo caminho duas vezes por dia por todos os dias do ano letivo. E esse frio também está me matando.
    - Poisé, somos duas. Esse frio realmente acaba com qualquer um. Parece até que a cada ano fica mais frio nessa época. Ainda bem que venho de carro para o colégio.
    - Sortuda.
    E riram. Foi um momento feliz naquele dia. Alice gostava desses momentos. Mas ficava triste quando lembrava que eram apenas momentos, e que tudo voltaria ao normal depois.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Chegava o Dia

    Os dias passavam. Alice havia encontrado Clara com um rapaz que começou a trabalhar no colégio. Apesar de ficar feliz por ela, não pode deixar de se sentir mal por tudo aquilo. Se sentia só, mais uma vez, como sempre foi na maior parte do tempo.
    Alice não tinha cabeça mais para pensar nos estudos. No colégio agia como um robô, seu corpo assistia as aulas, mas ela pensava em como seria o dia seguinte. Pensava em como poderia ser, e como queria que fosse. Eram ideias tolas, com coisas que só poderiam ocorrer em filmes de romance. Suspirou, e por um segundo voltou a prestar atenção na aula, em seguida repetia-se o processo.

    Começo de Julho. Havia quase um mês que Alice não prestava atenção às aulas. Seu rendimento havia caído muito, mas ela não ligava. Não lhe importavam o que os professores pensavam dela. Alice pensava apenas em o que fazer para se ocupar em casa.

   Era uma noite fria. O inverno havia se instalado em Belo Horizonte. Estava impossível ficar sem alguma proteção para o frio naqueles dias, de noite e de manhã principalmente. Na manhã deste dia Alice acordou com calafrios. Não queria tomar banho, mas não se sentia limpa. Se sentia suja e com frio, e queria se sentir ao menos limpa, já que podia se esquentar depois. Saiu do banho, se arrumou e tomou seu café, e foi para a aula.
    Durante o caminho Alice sentia suas mãos ficarem cada vez mais frias por causa do vento que batia de leve. Aquela sensação, que se parecia com o passar dos dedos na lateral de uma navalha fria, pronta para cortar algo, era agradável para Alice. Imaginou uma frase pouco poética ("este frio, corta-me como uma faca de prata, como que um assassino que sabe quando sua vítima não tem nada a perder").
    O dia passou como todos os outros, nada de especial aconteceu.
    A noite chegou. Alice estava sentada na frente do computador. Estava a visitar alguns blogs de humor, que não conseguiam alegrá-la muito, mas a mantinham com ânimo que consideraria "suficiente". Tudo ocorria como os dias anteriores, até que leu algo que a fez lembrar d'O Dia dos Namorados.
    Seria seu décimo sexto dia dos namorados, e desde que passou a gostar de outras pessoas, seria seu sexto dia dos namorados que passaria só.
    Alice não conseguia disfarçar a tristeza que sentia. Desligou o computador, e foi dormir, tentando não pensar nisso. Mas é claro que ela pensou a noite inteira neste assunto. Durante a noite, tinha pesadelos, e pela manhã tinha sorte. Sorte de não lembrá-los.