sexta-feira, 30 de abril de 2010

Preparação II

   No instante que Alice saiu de casa, olhou para o céu. Havia uma parte cheia de nuvens cinzas, que ficavam mais escuras com a distância, e a outra parte estava limpa, completamente sem nuvens. Coincidência ou não, a parte limpa estava sob sua casa, e a parte escura estava no caminho para o colégio.
   Alice estava no meio do caminho. De repente começa a chover. Não ligou muito para isso, já que estava apenas começando. "Dá tempo de chegar no colégio", pensou. Mal terminou de pensar nisso e já começou a chover forte. Exatamente como ela não havia previsto.
   O pior da chuva naquele dia era que Alice não estava com seu guarda-chuva. Não estava com sua mochila. Não carregava nada consigo além de sua carteira e seu celular. Usava o uniforme do colégio, mas não iria participar da aula.

   Chegou ao colégio encharcada. A chuva fez parecer que ela acabou de sair de um banho estando completamente vestida.

   Alice notou que a portaria do colégio estava quase totalmente vazia. Só havia ela e dois dos porteiros. Lembrou que sempre chegava antes de todos no colégio, e que Fernanda geralmente chegava atrasada.
   Alice achou melhor esperar por Fernanda. Resolveria aquilo até mesmo fora do colégio. Essa ideia não faria diferença para muitas pessoas, mas acabou agradando muito a ela.

   Esperou. 15 minutos depois Alice avistou o carro da mãe de Fernanda. Quando ela desceu do veículo Alice sentiu um aperto no coração. Um susto. O medo.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Preparação

    Chegou em casa. Alice não queria saber de praticamente nada naquele momento. Só queria saber de Fernanda, e como as coisas terminariam. Não ligava para Mariane, para seus colegas. Nada disso.
    Nem mesmo sua mãe foi capaz de entender o que se passava, de tão rápido que Alice correu para seu quarto.

    Alice sentou em sua cama. Ficou encarando o chão. Depois seus tênis brancos com alguns poucos detalhes em rosa, que já estavam aos poucos sendo desgastados pelo tempo de uso. Era um daqueles momentos estranhos em que nosso cérebro parece que para de funcionar. Como que para aliviar um pouco a situação.
    Não percebeu por quanto tempo ficou parada sem lembrar no que pensava. Só se lembrava que ao chegar em casa o céu estava laranja, os postes das ruas já estavam sendo acesos, e que agora já estava escuro. Não havia passado tanto tempo.

    Foi difícil dormir.

    No dia seguinte acordou sem vontade de ir ao colégio. Não era medo dos olhares dos colegas, mas medo de ver Fernanda. "Que bobagem...", pensava. Ela mesma sabia que uma hora deveria encarar isso, mas tinha medo de ficar triste. Alice começou a pensar nisso.
    "Medo de ficar triste." Lembrou de quando alguns colegas a viam triste e perguntavam "você tem medo de ser feliz, Alice?" e ela respondia que não, e que tinha vontade de responder "não. Mas tenho medo de ser triste", mas não o fazia. Talvez por preguiça, talvez por medo da reação de seus colegas, já que ela não respondia emocionalmente igual às outras pessoas. E não era por não gostar de garotos, mas Alice realmente era diferente. Tratava as pessoas de forma diferente.

    - Mãe...
    - Sim, Alice?
    - Posso ir no colégio só durante o primeiro horário? Só para saber se vou perder algo importante hoje, porque estou me sentindo meio mal, meio enjoada, entende?
    - Hmm, claro. Mas se tiver algo importante, você ficará por lá.
    - Está bem.
    De alguma forma Alice sabia que não ia ficar no colégio por muito tempo. E sua mãe também.

    "Tudo que vou fazer é falar com Mariane, e só", pensou Alice. Deu um longo suspiro e terminou de amarrar os cadarços de seus tênis brancos com detalhes rosas.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Por que?

    - Fernanda! - gritou Alice do portão interno do colégio, para que Fernanda parasse de correr. Não obteve resposta. - Que merda! Que grande merda! - começou a reclamar.
    Alice ficou encarando o chão por algum tempo, pensando. O que fazer agora?
    Saiu da escola e foi para a casa de Mariane.

    Tocou o interfone. Quem atendeu foi a mãe de Mariane, que deixou Alice entrar. Logo percebeu que estava chateada. Não é preciso ser sua filha para notar a tristeza.

    - Hmm, Alice. Você veio ver a Mari, não é?
    - Sim.
    - Bom, ela não está em casa, ela acabou de sair.
    - Eu espero.

    Os minutos se passaram e Mari voltou para casa. Quando viu Alice sentada no sofá da sala de estar ficou sem reação. Não esperava por isso.

    - Como você pode? Como? Por que? - Mariane não falou nada. - Sabe... eu estava, pela primeira vez nessa maldita vida começando a ser feliz de verdade - sua voz já estava abafada, olhos mais brilhantes que o normal por causa das lágrimas iminentes. - e agora, não sei o que vai acontecer, e tudo por sua causa! - Fez-se um longo silêncio. - Por que?
    - Me desculpe Alice, mas eu estava fora de mim, por favor, me desculpe.
    - Nunca mais olhe para mim. Por favor. - e foi em direção à porta.
    - Por favor, Alice! Deixe-me explicar!
    - Não tem nada para explicar! - e foi-se.

    No caminho de volta para casa começou andando. Alice e seus maus pensamentos, como antigamente. Não gostava disso. Pensava em Fernanda. Pensava em si mesma. Pensava como iria encarar aqueles olhares todos os dias. Pensava se isso duraria todos os dias. Pensava em como Fernanda reagiria. Será que ela abandonaria Alice naquela escola? Doía pensar nisso.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Fofoca

    "O que é bom dura pouco"

    Terça-feira de manhã. Tudo estava normal para Alice e Fernanda. Mas quando dizemos normal, queremos dizer o normal delas, e não o normal da maioria das pessoas. O dia começou assim como as últimas terças-feiras. Foram para a escola.
    Chegaram ao portão da escola. Se encontraram pela primeira vez no dia. Assim que se avistaram, se sentiram felizes novamente. Como quem vê na sua frente um bom motivo para sorrir, e continuar lutando para ser feliz. Para continuar vivo. Para encontrar na felicidade do outro a própria felicidade. Mas além desse sentimento, havia mais alguma coisa. Algo ruim.
    Alice e Fernanda podiam sentir olhares estranhos voltados para elas. Era aquela sensação que elas nunca esperariam, já que não demonstravam seus sentimentos no colégio, justamente para evitar isso.
    - Alice, o que está acontecendo? - perguntou Fernanda
    - Não sei Fêr, você também não sabe?
    - Não. - Nessa hora o coração de Alice deu um salto. Estavam ela e Fernanda andando pelos corredores, sentindo os olhares de desprezo dos outros alunos de outras turmas.

    Chegaram na sala. Seus colegas estavam conversando e fazendo bagunça na sala, aproveitando o tempo que tinham antes dos professores se dirigirem às salas. Alguns brincavam, outros conversavam, outros faziam o dever que haviam deixado de fazer no dia anterior. Haviam também alguns que tentavam fazer os três ao mesmo tempo. E falhando, obviamente.
    Elas entraram. Fez-se silêncio. Alice procurou pela única pessoa que poderia ser responsável por isso, já que o motivo já era conhecido. "Só pode ser ela." pensou. "Mas por que?" Essa pergunta ficou em sua cabeça durante todo o dia. 
    Foi um dia quieto. Até mesmo os professores notaram isso. Mas eram professores. Não faziam parte do vínculo de comunicação social dos estudantes, então não sabiam de fofocas (e nem pareciam estar interessados, já que ficaram bastante contentes com a quietude da sala).

    Ao final do dia Alice já tinha certeza de uma coisa: sabia do porque Mariane não ter ido à aula.

domingo, 25 de abril de 2010

Encontro

    Alice estava feliz. Chegou em casa com uma felicidade tão grande que nem sua mãe acreditava. Fazia tempos que não via ela assim.
  
    - Ei Alice, o que aconteceu? - pergunta Verônica.
    - Mãe! Você não vai acreditar...
    E assim a mãe de Alice ficou sabendo do segredo que antes era só entre Alice e Fernanda. E antes disso era só entre Alice e sua mãe. E agora é entre as três.
  
    Os dias passaram rápido. Rápido demais. "Por que sempre quando estamos felizes o tempo passa rápido?" perguntou Alice para si mesma. Imediatamente lembrou de um texto que dizia que enquanto estamos felizes não nos importamos com o tempo. Mas quando estamos tristes queremos que o tempo passe logo, e por isso temos a sensação que ele não passa.
    Alice havia chamado Fernanda para ir até a casa dela, ver um filme. Um filme nada romântico, para falar a verdade. Era "Avatar" de James Cameron. Alice adorava este filme. Chorava todas as vezes que o assistia. Tinha o visto três vezes nos cinemas, e alguns dias atrás ele foi lançado em disco digital de vídeo (DVD). Não perdeu tempo e locou o filme na locadora mais próxima de sua casa.

    Era uma tarde de sexta-feira. Não haviam nuvens no céu. O dia estava perfeito, apesar de um pouco quente. "Ah, esse aquecimento global..."

    Fernanda tocou o interfone. Alice atendeu e abriu o portão.
    Alice morava num prédio que seus colegas consideravam chique para os padrões de sua sala. Era um prédio alto, com cerca de 23 andares. Branco, com algumas vidraças azuis no térreo. Era um prédio realmente bonito, e com uma aparência chique que Alice não conseguia ver.

    Fernanda subiu pelo elevador. Alice a esperava na porta do apartamento.

    Saiu do elevador. Se viram. Se lançaram uma à outra. Se beijaram.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Não estou Só

    - Alice, você é minha melhor amiga, e eu não tenho ninguém mais para contar isso...
    - O que é, Fer? Fale, por favor, estou preocupada!
    - Alice, eu gosto de mulheres. - O mundo parou. De repente tudo parou para Alice. Milhares de coisas vieram à sua cabeça naquele momento.

    Alice se lembrou de várias festas da qual foi com Fernanda durante esses meses. Não tinha parado para pensar nisso antes, mas em todas as festas ficou conversando com Fernanda. Não fizeram praticamente mais nada, além de conversar e aproveitar algumas das músicas que tocavam (algumas porque Alice detestava o funk que tocava na maior parte das festas, e gostava das outras). É verdade. Alice nunca vira Fernanda se envolver com nenhum rapaz, durante meses. Algo que julgava incomum para as garotas de sua idade.

    - Alice? - Chama Fernanda. Neste momento, Alice toma uma expressão de tamanha surpresa que parece estar hipnotizada.
 
    Nada a ser dito. Alice dá um salto para cima de Fernanda, a abraça. Fernanda corresponde.

    - Eu devia ter percebido antes, Fêr... Eu compreendo. Compreendo mesmo, como ninguém.
    - Como pode? - Fez-se uma pausa.

    - Eu sou como você, oras... - Alice dizia isso de uma forma natural, à vontade. Pela primeira vez não se sentiu realmente incomodada ao falar isso com alguém. Quando contou este segredo para Mariane, se sentiu um pouco perturbada, constrangida, mas agora não.

     Algo realmente mágico aconteceu nesse dia. E nos dias seguintes.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A Confissão

   Os dias, semanas, e meses foram passando. Fêr, como era chamada Fernanda, já ocupava a antiga posição de melhor amiga que antes era ocupada por Mariane.

    "É incrível. Parece que o tempo cura tudo. É exatamente o que meu professor de português havia dito algumas semanas atrás. Não importa o que aconteça conosco, o tempo uma hora acabará com a alegria, e também com a tristeza. Parece que alternando entre um e outro, ou os misturando...", pensava Alice naquela manhã, logo depois de ter acabado de se arrumar para ir ao colégio.

    Aparentemente seria um dia comum, se sua amiga Fêr não tivesse a chamado para encontrá-la no colégio depois da aula.

    E a tarde caiu. Alice caminhava pelos corredores até a biblioteca, onde decidiram se encontrar. Fernanda não havia lhe dito o que queria, nem o porque daquela localização. Tinha a estranha sensação de ser algo que ela esperava, alguma espécie de confissão, mas não sabia o que. Pensava que talvez seria sobre algum menino, algum problema familiar. E não era.

    - Alice, tenho que te contar uma coisa. Eu não sei como falar. É difícil, sabe? Você é minha melhor amiga, e sei que posso confiar em ti, mas é difícil falar isso, admitir isso...
    - Calma, respire fundo, acalme-se. Não tenha pressa. É algo sério? Algo sobre mim, você, ou outra pessoa? - Fernanda apontou o indicador para ela mesma.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Boas Novas

    Alice se encontrava em uma ponte suspensa. Não conseguia enxergar o que havia abaixo dela, nem onde ela terminava ou começava. Só conseguia olhar para frente. Ali estava uma garota que ela nunca havia visto. Tinha os cabelos longos e lisos, castanho claros. Era completamente diferente de todas as outras garotas que já tinha visto. Até de Mariane.
    Começou a andar para frente, para o meio da ponte. A garota do outro lado também. Quando finalmente se encontraram, ficaram encarando uma à outra com a mesma expressão de surpresa. Não era uma expressão de medo, mas de extremo carinho, apesar da surpresa. Alice sentiu que conhecia essa garota, e que ela a conhecia também.
    A garota falou "Alice". E o sonho acabou.
    "Quem era essa garota? Que sonho estranho foi esse? Caramba, estou ficando louca..." pensava Alice, quando terminara de abrir os olhos naquela manhã de terça-feira. Eram 5:30 da manhã. Trinta minutos antes da hora que costuma acordar em dias de semana. Apesar do sonho, aquela foi uma manhã normal, até chegar em sua sala.

    Se sentiu particularmente leve naquela manhã. Parecia que um peso enorme havia sumido de suas costas. Pelo menos por enquanto.

    Chegou ao colégio. Ao entrar na sala, Alice encontra uma garota desconhecida sentada na terceira carteira na fileira que ficava próxima à porta. Não demorou muito para encontrar com seus colegas e ficar sabendo que era uma aluna nova. Seus colegas não sabiam seu nome. "Só há um jeito de descobrir, certo?" Não havia entendido o porquê de estar tão alegre neste dia, mesmo com o ocorrido no dia anterior. Mas também não se preocupava com isso naquele momento. Queria aproveitar o máximo dessa boa sensação.
    - Oi!
    - Oi. - Disse a garota nova.
    - Meu nome é Alice. Qual o seu?
    - Fernanda. Prazer. - Apertaram as mãos nesse momento.

    Mariane não havia ido à aula nesse dia. Alice não parou para pensar nisso. Tinha acabado de fazer uma nova amiga. Foi para o colégio leve como uma pluma, mas mesmo magoada notou a falta de Mariane na aula, e este fato acionou seus pensamentos depressivos, que logo a puxaram para baixo. Ainda doía. "Amar dói", falava para si mesma.

    Alice achava incrível como os pensamentos influenciam diretamente no nosso humor. O simples fato de você pensar em algo te levava a lembrar de fatos, e consequentemente de sentimentos que sentia na hora. Quando Mariane rejeitou seu convite para a quadrilha foi um sentimento ruim, que magoava, que a rasgava por dentro, mas durante o sonho, com a garota que nunca tinha visto, sentiu-se alegre, leve, restaurada, como há muito não sentia.

    Enquanto voltava para casa, lembrou de seu sonho, e lembrou também de Fernanda. Era estranho como as duas garotas entraram em sua vida no mesmo dia, apesar de não estarem diretamente ligadas à ela antes. Não havia parado para pensar nisso antes, mas as duas garotas eram parecidas. Não eram idênticas, mas quando se aproximou de Fernanda sentia que, de alguma forma, já a conhecia, assim como a garota de seu sonho. Contudo, eram diferentes. Subitamente Alice lembrou do que havia ocorrido nos dias anteriores, e lembrou de como as coisas funcionam no mundo real. Imediatamente parou de flutuar na felicidade, e caiu. Voltou ao normal. Voltou a ser a Alice que sentia ser a única pessoa daquele jeito no mundo, mesmo sabendo que não era.

    Já estava em casa antes mesmo que se lembrasse que estava indo para lá. Ao longo dos anos, o caminho que fazia do colégio até sua casa, e vice-versa, se tornou mecanizado. O caminho já estava programado.
    Foi fazer a lição. Abriu o livro de redação.

Como é ingênuo o amor.
Mais forte dos sentimentos.
Às vezes a pior das sinas.
Me faz sonhar com lugares que talvez não verei,
Mas eu quero que assim seja.
Eu quero continuar sonhando.

   Tudo de repente parecia estar se coincidindo demais para ser verdade. Agora até mesmo poemas de seu livro decifravam o que ela sentia. Estava cansada. Fechou o livro e foi dormir. Aproveitaria que provavelmente nesta semana não haveria aula na quinta e sexta-feira. "Só mais um dia", pensou, "e poderei descansar e botar tudo em ordem."

terça-feira, 20 de abril de 2010

A Omissão

   Alice acordou. Era final de tarde. Quando o céu está num tom alaranjado no horizonte, e o azul claro do dia se escurece, como a lâmpada do amor vai lentamente se apagando. Deu um longo suspiro, e se sentou na beira da cama. "Que dor de cabeça". Toda vez que chorava muito ficava com dor de cabeça. Alice detestava isso, e com razão. Afinal de contas, quem gosta de chorar e sentir dor de cabeça logo em seguida? "Parece até que chorar é errado, e a dor de cabeça é uma punição", era o que pensava naquele momento, antes de levantar um pouco a cabeça e perceber em sua estante um objeto metálico que estava destacado dos demais. Era um pequeno gato de metal, que tinha um "A" escrito na coleira. Mari havia lhe dado aquilo no ano passado, em seu aniversário de 16 anos. Por mais incrível que possa parecer para algumas pessoas, Alice começou a pensar em como faria uma festa de aniversário este ano, sendo que sua melhor amiga já não estaria mais disponível por um tempo [indefinido] (que nem Alice sabia o quanto ia durar).
    Não passou pela sua cabeça a conversa que tivera com Mariane na manhã daquele dia. Não queria pensar nisso, de qualquer forma. Não queria piorar sua dor de cabeça, e do coração.
    Depois de tomar um remédio para a dor, Alice se dirigiu ao computador.
    Alice gostava de acompanhar blogs. Especialmente os de humor. Mas também lia alguns textos publicados por seus amigos em seus respectivos blogs. Achava aquilo a maior perda de tempo possível para um ser humano civilizado atualmente. "Vocês nem vão conseguir visitas de outras pessoas se não aquelas que vocês enchem tanto o saco para visitarem o blog...", era um pensamento frio de se dizer para os jovens que escreviam com prazer. Por isso Alice preferia guardar estes pensamentos para si, ao invés de contar para seus amigos e colegas.

    Alguns minutos se passaram e Verônica chegou em casa. Alice ouviu sua mãe deixando as chaves na mesa, junto com a bolsa. Podia ouvir os passos se aproximarem até que...
    - Oi meu anjo!
    - Oi mãe. - Não havia um pingo de ânimo na voz de Alice.
    - Nossa, o que aconteceu? Por que está tão pra baixo garota? - Sua mãe não aparentava perceber a tristeza que estava sentindo naquele momento, mas ela percebeu.
    - Ah, uma dor de cabeça que senti quando acordei. Logo depois do colégio eu cheguei aqui e deitei, peguei no sono, e acordei com esse monstro comendo meu cérebro. - Alice não falava com dificuldade o que havia ocorrido, pois não havia nada que pudesse deixar claro o que sentia nestas frases e, de certa forma, não estava mentindo. Tudo parecia fácil, de repente.
    - Entendo. Já tomou o remédio então?
    - Ah, sim mãe. Estou melhor agora.
    - É, posso ver. Já até está lendo suas páginas na internet, não é?
    - Poisé... - Fez-se um silêncio. Alice ficou com medo de que ocorresse algo particularmente semelhante ao que aconteceu com Mariane de manhã.
    - O que quer jantar? - Perguntou a mãe.
    - Ah, tanto faz. Surpreenda-me! - Respondeu Alice, pensando rapidamente em virar o rosto, para disfarçar a cara que fez
    - Ok então. - E a mãe foi para a cozinha.
    Alice havia feito uma cara realmente intrigante quando sua mãe perguntou sobre o jantar. Não sabia se devia ficar feliz, ou triste. Pensava que sua mãe não havia percebido sua tristeza. "Isso deveria ser uma coisa boa", pensou ela, "mas por que então eu estou assim?" Se sentia decepcionada. Sim, decepcionada era a palavra que melhor descrevia o que sentia naquele momento. "Será que ela não percebeu mesmo como estou ou ela fingiu bem demais hoje? Ah... esquece...", e deixou este pensamento para trás. Talvez a única diferença deste pensamento para o de quando lembrava de sua conversa sobre a festa junina tenha sido que Alice conseguiu esquecer este mais rapidamente, e sem esforço algum.

    Não estava feliz. E aquela noite passou como uma noite qualquer. Fez a lição para o dia seguinte, e dormiu.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Queda

    Alice estava tensa. A aula havia acabado e todos saiam da sala. No final só restaram ela, Mari e algumas outras pessoas da classe, que já estavam se encaminhando para fora da sala. Ela sentiu calafrios só de pensar em ficar a sós com Mari. Pela primeira vez, em tanto tempo, sentiu medo de estar com uma pessoa que amava. Sentia medo de ouvir aquilo que não queria.
    - Alice?
    - Ei Mari. Nem conversamos direito hoje, não é? - Alice fez um comentário direto. Ela não fazia muito o tipo que fica enrolando conversas. Apesar de tímida, era bem objetiva.
    - Bom, poisé. É que... Bom, não sei como dizer isso, mas sei lá... Sobre a festa, eu... - E fez-se uma pausa.
     Alice sentia seu coração pular. Era como se estivessem torturando ela. Como se estivesse com uma grande falta de ar, se afogando em seus próprios sentimentos, e como se não conseguisse sair daquele mar profundo...
     - Eu não sei se vamos poder dançar juntas. Quero dizer... Eu te entendo, e olha, não me importo. Mas é que ficaria mal para mim, para nós, entende? - "Não, não entendo", era o que Alice queria dizer, mas não disse.
     - É... bom, eu já estava pensando nisso também, e acho que concordo. Então vamos deixar passar, certo? - Doía mentir assim. Ela já sentia seus olhos pulsarem, quase começando a arder. - Bom, tenho que ir, até amanhã Mari. - E assim se despediu de sua amiga.
     Alice partiu. Percebeu, antes de sair da sala, que Mari soltou um longo suspiro e que continuou guardando seu material, o que lhe deu tempo para, dali a pouco, chorar. Antes mesmo de descer as escadas. Não suportou. Correu, não importando com quem estivesse a sua frente, pois ela desviaria. Faria de tudo para sair daquele lugar o mais rápido possível, e chegar ao conforto de seu quarto, onde sabia que podia ser ela mesma sem se preocupar em ser magoada.

     Foi a volta para casa mais rápida que Alice já fez. Logo quando chegou em casa seu rosto já havia melhorado um pouco. Estava com as faces rosadas por causa do desespero (e cansaço, pois veio num ritmo muito acelerado para casa). "Minha mãe não está em casa, ótimo!", pensou. Não estava realmente feliz em esconder este acontecimento de sua mãe, mas sentia que de alguma forma seria o melhor. É. Seria melhor não contar para sua mãe. Assim causaria menos preocupações.
     Não se importou com a casa. Jogou a mochila no sofá e correu para o quarto, se trancando lá dentro. O máximo que fez foi tirar o tênis, e logo depois disso caiu na cama, abraçou o travesseiro, e não teve mais forças para continuar acordada. Dormiu.

Dúvida

   Chegou na porta do colégio. Era um edifício grande, que não chegava a ocupar um quarteirão inteiro, mas era bem alto, tinha 5 andares. Tinha composto um poema para a aula de redação. Era sobre amor, mas não tinha coragem de revelar seu segredo para ninguém, e por isso omitiu o nome da pessoa para qual a poesia era dedicada.

Sinto este amor que abraça sem tocar
E tantas vezes toca sem abraçar.
Um amor que não vai longe
Estando tão enraizado em mim.

E que não segue confiante
E que vive de esperanças.
Um amor que não é firme
E que não tem chão para pisar

E que luta para continuar a ser
Sem estar em guerra e nem morrer.
Sentimento que vive não apenas o hoje
Mas também o possível futuro

Como se amanhã fosse existir
De uma forma diferente
Um amor que se manifesta em tudo

Desde o que sonho, até em meu respirar.
É simplesmente este o meu modo de amar.


    Alice não admitia para seus colegas, mas era realmente boa em poesias. Especialmente nas que se retratava o amor. Aquele amor quente. Aquele amor melódico. Aquele amor tão suave, tão carinhoso, incondicional. Aquele amor amor, de quando você acaba por deixar que a felicidade da pessoa amada se torne parte de sua felicidade.

    Subiu as escadas. Caminhou pelos corredores bem iluminados. No caminho percebia alguns alunos de outras turmas fora das salas, conversando antes da aula começar. Alguns apenas conversavam, já outros trocavam leves carícias. "Os famosos casaizinhos..." pensava Alice, que ao passar por estes começava a sorrir, imaginando como seria ela e sua amada. "Seria tão perfeito, tão diferente, tão..." e parou de sorrir. É verdade, as chances de este sonho acontecer eram pequenas. "Mas não impossíveis." Tentava ter pensamentos positivos, o sorriso voltava de repente, e sumia com a mesma facilidade.
    Chegou à sua sala. Número 304. Viu no mural próximo à porta o aviso da diretoria:

Últimas chamadas para a quadrilha para a Festa Junina!
Inscreva-se até o dia 20 de Maio!

 
   - Merda! - rangeu Alice.
   - O que foi amiga? - perguntou Mari. Neste momento Alice virou-se e viu o lindo rosto moreno de Mari, com aqueles cabelos castanhos lisos, muito bem cuidados. Gaguejou.
   - É-é q-que...
   - Ah! A quadrilha, já havia me esquecido.
    Fizeram uma longa pausa. As duas se encaravam. Uma esperava a outra dar continuidade à conversa.
    - É, bom... vou lá me sentar.
    - Tá bom, até daqui a pouco.
    Alice se dirigia até sua carteira, processando toda a informação que acabara ser enviada até seu cérebro. O mundo parecia ter parado. Foram tantos pensamentos em tão poucos passos até seu lugar. Foi tanta coisa que sentiu que quando sentou em seu lugar parecia que estaria grudada lá pelo resto da aula. "Ela percebeu que eu gaguejei, droga!", foi um de seus pensamentos. "E ela? Por que não disse nada?", e outro. "Será que ela vai dizer que não vai, inventando uma desculpa qualquer, ou será que ficou sem graça e vai comigo?" Tais pensamentos não deixaram Alice se concentrar durante os 6 horários de aula, de 50 minutos cada. Por sorte nesse dia não havia muita matéria a ser dada pelos professores, e nem ela estava com dificuldades em alguma para se importar com isso.

domingo, 18 de abril de 2010

Segunda Chance

    Alice abre os olhos. Consegue sentir o bom cheiro de seu travesseiro que fora lavado no final de semana por sua mãe. Além disso, ouve o despertador tocar. "Que droga". Este foi o primeiro pensamento do dia.
    É inevitável. Desde que começou a acordar às 6 da manhã para ir para o colégio Alice percebeu que segunda-feira é o pior dia da semana. Quando não se acorda com preguiça demais para se levantar, geralmente tem-se um pouco de motivação para tal e também uma bela dor de cabeça para atrapalhar o dia.

     Foi para o banho. Ao sair percebeu que provavelmente hoje Mari lhe daria algum retorno sobre a quadrilha de festa junina. Ou melhor, isso se ela se lembrasse, pois os dias anteriores foram muito tensos para Mari. E para Alice.
     Ao terminar de vestir o uniforme do colégio, Alice lembrou que havia colocado algumas músicas novas em seu iPod Nano rosa. Dentre elas a música "So What", da cantora Pink. Alice realmente havia gostado dessa música, e não só pelo ritmo, mas também porque é a música que tocou em um dos episódios de sua série sobre investigações preferida: Castle.
    Desceu correndo as escadas e saiu em direção ao colégio. Que se seguia basicamente em linha reta até sua casa. Eram aproximadamente 5 quarteirões. Não era muito para uma garota saudável e em forma como Alice, que seguia o mesmo caminho duas vezes ao dia, durante cinco dias por semana, quatro semanas por mês e aproximadamente 38 semanas por ano.
    Durante o caminho que fazia, não conseguia deixar de pensar em Mari.

"Mari, Mari, Mari, linda Mari." Pensava. "Um dia quem sabe...", e baixava a cabeça.

O Fim do Final [de Semana]

    Domingo chegou. Alice ainda estava deitada. No momento em que abriu os olhos a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi que era domingo, e que domingo é dia de fazer absolutamente nada, ou então fazer os deveres de casa para segunda-feira. Levantou-se, deu um longo suspiro e se dirigiu ao banheiro. Pela primeira vez percebeu que seu cabelo não fica tão feio de manhã como o de outras garotas. "Como se isso me fosse algo útil" pensou ela. Lembrava da festa que havia tido na sexta-feira, logo depois da aula. Ficava triste ao pensar nisso. Lembrava que na festa estava a maioria de seus colegas, e que estavam divididos em dois grupos por causa de uma briga tosca. "Meu deus, que povo burro", dizia ela.
    O salão em que ocorreu a festa estava separado de forma bem definida. Haviam duas mesas bem grandes, e cada grupo ocupava uma dessas. Um colega de Alice comentou "nossa, isso aqui parece até uma faixa de Gaza." Infelizmente Alice não tinha como discordar disso.
    Na festa também estava Mari, a melhor amiga de Alice. Mari estava com um garoto com qual passou boa parte da festa. Alice se sentiu incomodada com isso, mas deixou passar, pois sabia que sua felicidade muito dependia da felicidade de Mari. Apesar disso, a festa ocorreu sem problemas, até o final. Mari e seu homem começaram a brigar, por algum motivo que Alice desconhecia. Pelo que ficou sabendo, ele disse algo que magoou ela da forma que só uma garota conseguiria compreender. Ele não pediu desculpas, e assim começou a briga. No final parece que terminaram o relacionamento antes mesmo de começar o relacionamento. Mari chorou e Alice a abraçou, apoiou ela, a consolou. Fez tudo que uma boa amiga faria numa hora dessas. Mas por dentro sentia que mesmo fazendo isso ela não conseguiria o amor de Mari, porque ela era diferente. Alice teve vontade de chorar, mas conteu-se. "Tenho que ser forte para Mari agora, não posso chorar" pensou ela.

    Não foi a primeira vez que Alice foi numa festa que começou bem e terminou mal. Várias de suas colegas já tiveram este mesmo fim de Mari, e Alice reagiu da mesma forma quase todas as vezes. Quase todas as vezes porque Alice não é uma garota boa com consolos. Ela dá bons conselhos, mas vê as coisas de uma forma tão diferente que não se importa em deixar passar algo que é, para muitas pessoas, algo sério. Para ela não significava nada. E quando algo não significa nada para você, é melhor não se envolver.
    "Pelo menos agora ela está sozinha...". Foi a única coisa que Alice conseguiu pensar antes de lembrar como este tipo de pensamento afasta as pessoas dela.

    Tudo indicava que o dia seguinte seria melhor, apesar das aulas. Alice realmente detestava ter aulas. Detestava deveres de casa. Detestava tudo que era obrigada a fazer. Ela procurava entender o porque das escolas brasileiras não serem iguais às escolas do exterior, onde não é são as notas individuais que fazem o aluno, e sim seu desempenho como um todo. "Merda de país", pensava.
    Alice fez sua lição de química para segunda, e se arrumou para dormir. Dormiu.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Primeira Noite

     Foi um sábado de ócio puro. Isso quer dizer que foi, basicamente, mais um sábado comum para Alice. Ela havia se tocado no final da noite, enquanto olhava para o teto de seu quarto, que Mari não havia lhe dado um retorno sobre a festa. Começou a pensar sobre isso. "Merda" pensou, e uma lágrima pequena e tímida começou a escorrer pelo canto de seu olho esquerdo, enquanto sua face permanecia a mesma, olhando para o teto. Ela estava paralisada, com medo da pior coisa que poderia ocorrer: perder sua única verdadeira amiga.

Primeira Manhã

     Cedo, logo de manhã. Eram aproximadamente 9:30 da manhã de um sábado e Alice não tinha vontade de acordar. Estava chateada demais com o ocorrido no dia anterior durante a aula, quando determinariam os pares para a festa junina de seu colégio. De longe Alice parecia uma garota normal, mas não era como as outras. Ela gostava de outras mulheres, e não de homens. Era exatamente por isso que estava chateada naquela manhã em especial.
     O dia anterior tinha tudo para ser mais uma sexta-feira típica na vida de Alice. Uma sexta-feira chata, como todas as outras. Mas não foi. Naquele dia uma das garotas que trabalhava no colégio chegou até a sala de Alice para anunciar as inscrições para as quadrilhas da festa junina de seu colégio.
     "Vamos passar uma lista, e nela vocês devem colocar seus nomes" disse a garota que veio com a lista. Alice naquele momento sentiu um calafrio, porque não sabia que as chamadas para as quadrilhas viriam tão cedo. Ela pensava que teria mais tempo para chamar sua amiga, que estava com dúvidas se dançaria ou não. Alice tinha todo um plano traçado em sua mente, no qual insistiria e até seria capaz de apelar para o lado emocional, mas agora estava tudo perdido. Ela teria de resolver aquilo tudo programado para semanas em uma única manhã.
     "Mari..." começou Alice. "Você gostaria de... hmm... d-dançar comigo na quadrilha?". Até gaguejou. Mari ficou chocada com o pedido, disse que iria pensar, e responderia no final da aula. "Por que as pessoas nunca falam 'não' de uma só vez? Seria tão mais fácil. Parece que as pessoas gostam de nos deixar ansiosas só para nos ver desabar no final" pensava Alice.
     Mari era a única melhor amiga de Alice. Outras pessoas seriam classificadas mais como colegas, e às vezes nem isso. Alice era uma pessoa muito seletiva com relação às amizades. Havia conhecido Mari no primeiro dia de aula, quando tiveram que formar uma dupla para uma dinâmica que o professor propôs. Logo ficaram amigas, e depois disso melhores amigas. Alice contava tudo para Mari. Tudo mesmo. Até o que era. Mari estava ciente o tempo todo de como Alice se portava diante de outras garotas, e não se importava com isso. Mari dizia "oras, se você gosta disso, disso e disso, porque não te deixar em paz e te tratar como uma pessoa normal? Isso é ridículo, sabe? Discriminação de merda." Alice gostava muito de Mari por causa de sua atitude, que não era preconceituosa, e talvez por isso desejasse tanto que a amizade que tinha com Mari não fosse somente amizade. Alice queria mais. E mais...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Alice

     Alice é uma garota de 16 anos que vive com a mãe, pois seus pais são separados. Alice tem cabelos curtos e negros como o ouro negro. Tem a estatura de uma típica adolescente de 16 anos, que é um pouco mais baixa que os garotos de sua turma, mas um pouco mais alta que suas colegas. Sua mãe, Verônica, se parece muito com ela, mas possui olhos castanhos mais escuros que os de Alice, que são castanho claros. O pai de Alice também tinha olhos castanhos claros, mas isso antes de falecer. Alice tinha 3 anos quando isto ocorreu.

     Alice tem tudo para ser uma garota normal, se não fosse seu gosto que difere das garotas de sua idade. Mais tarde estes viriam a lhe causar problemas.