quarta-feira, 21 de abril de 2010

Boas Novas

    Alice se encontrava em uma ponte suspensa. Não conseguia enxergar o que havia abaixo dela, nem onde ela terminava ou começava. Só conseguia olhar para frente. Ali estava uma garota que ela nunca havia visto. Tinha os cabelos longos e lisos, castanho claros. Era completamente diferente de todas as outras garotas que já tinha visto. Até de Mariane.
    Começou a andar para frente, para o meio da ponte. A garota do outro lado também. Quando finalmente se encontraram, ficaram encarando uma à outra com a mesma expressão de surpresa. Não era uma expressão de medo, mas de extremo carinho, apesar da surpresa. Alice sentiu que conhecia essa garota, e que ela a conhecia também.
    A garota falou "Alice". E o sonho acabou.
    "Quem era essa garota? Que sonho estranho foi esse? Caramba, estou ficando louca..." pensava Alice, quando terminara de abrir os olhos naquela manhã de terça-feira. Eram 5:30 da manhã. Trinta minutos antes da hora que costuma acordar em dias de semana. Apesar do sonho, aquela foi uma manhã normal, até chegar em sua sala.

    Se sentiu particularmente leve naquela manhã. Parecia que um peso enorme havia sumido de suas costas. Pelo menos por enquanto.

    Chegou ao colégio. Ao entrar na sala, Alice encontra uma garota desconhecida sentada na terceira carteira na fileira que ficava próxima à porta. Não demorou muito para encontrar com seus colegas e ficar sabendo que era uma aluna nova. Seus colegas não sabiam seu nome. "Só há um jeito de descobrir, certo?" Não havia entendido o porquê de estar tão alegre neste dia, mesmo com o ocorrido no dia anterior. Mas também não se preocupava com isso naquele momento. Queria aproveitar o máximo dessa boa sensação.
    - Oi!
    - Oi. - Disse a garota nova.
    - Meu nome é Alice. Qual o seu?
    - Fernanda. Prazer. - Apertaram as mãos nesse momento.

    Mariane não havia ido à aula nesse dia. Alice não parou para pensar nisso. Tinha acabado de fazer uma nova amiga. Foi para o colégio leve como uma pluma, mas mesmo magoada notou a falta de Mariane na aula, e este fato acionou seus pensamentos depressivos, que logo a puxaram para baixo. Ainda doía. "Amar dói", falava para si mesma.

    Alice achava incrível como os pensamentos influenciam diretamente no nosso humor. O simples fato de você pensar em algo te levava a lembrar de fatos, e consequentemente de sentimentos que sentia na hora. Quando Mariane rejeitou seu convite para a quadrilha foi um sentimento ruim, que magoava, que a rasgava por dentro, mas durante o sonho, com a garota que nunca tinha visto, sentiu-se alegre, leve, restaurada, como há muito não sentia.

    Enquanto voltava para casa, lembrou de seu sonho, e lembrou também de Fernanda. Era estranho como as duas garotas entraram em sua vida no mesmo dia, apesar de não estarem diretamente ligadas à ela antes. Não havia parado para pensar nisso antes, mas as duas garotas eram parecidas. Não eram idênticas, mas quando se aproximou de Fernanda sentia que, de alguma forma, já a conhecia, assim como a garota de seu sonho. Contudo, eram diferentes. Subitamente Alice lembrou do que havia ocorrido nos dias anteriores, e lembrou de como as coisas funcionam no mundo real. Imediatamente parou de flutuar na felicidade, e caiu. Voltou ao normal. Voltou a ser a Alice que sentia ser a única pessoa daquele jeito no mundo, mesmo sabendo que não era.

    Já estava em casa antes mesmo que se lembrasse que estava indo para lá. Ao longo dos anos, o caminho que fazia do colégio até sua casa, e vice-versa, se tornou mecanizado. O caminho já estava programado.
    Foi fazer a lição. Abriu o livro de redação.

Como é ingênuo o amor.
Mais forte dos sentimentos.
Às vezes a pior das sinas.
Me faz sonhar com lugares que talvez não verei,
Mas eu quero que assim seja.
Eu quero continuar sonhando.

   Tudo de repente parecia estar se coincidindo demais para ser verdade. Agora até mesmo poemas de seu livro decifravam o que ela sentia. Estava cansada. Fechou o livro e foi dormir. Aproveitaria que provavelmente nesta semana não haveria aula na quinta e sexta-feira. "Só mais um dia", pensou, "e poderei descansar e botar tudo em ordem."