Alice acordou. Era final de tarde. Quando o céu está num tom alaranjado no horizonte, e o azul claro do dia se escurece, como a lâmpada do amor vai lentamente se apagando. Deu um longo suspiro, e se sentou na beira da cama. "Que dor de cabeça". Toda vez que chorava muito ficava com dor de cabeça. Alice detestava isso, e com razão. Afinal de contas, quem gosta de chorar e sentir dor de cabeça logo em seguida? "Parece até que chorar é errado, e a dor de cabeça é uma punição", era o que pensava naquele momento, antes de levantar um pouco a cabeça e perceber em sua estante um objeto metálico que estava destacado dos demais. Era um pequeno gato de metal, que tinha um "A" escrito na coleira. Mari havia lhe dado aquilo no ano passado, em seu aniversário de 16 anos. Por mais incrível que possa parecer para algumas pessoas, Alice começou a pensar em como faria uma festa de aniversário este ano, sendo que sua melhor amiga já não estaria mais disponível por um tempo [indefinido] (que nem Alice sabia o quanto ia durar).
Não passou pela sua cabeça a conversa que tivera com Mariane na manhã daquele dia. Não queria pensar nisso, de qualquer forma. Não queria piorar sua dor de cabeça, e do coração.
Depois de tomar um remédio para a dor, Alice se dirigiu ao computador.
Alice gostava de acompanhar blogs. Especialmente os de humor. Mas também lia alguns textos publicados por seus amigos em seus respectivos blogs. Achava aquilo a maior perda de tempo possível para um ser humano civilizado atualmente. "Vocês nem vão conseguir visitas de outras pessoas se não aquelas que vocês enchem tanto o saco para visitarem o blog...", era um pensamento frio de se dizer para os jovens que escreviam com prazer. Por isso Alice preferia guardar estes pensamentos para si, ao invés de contar para seus amigos e colegas.
Alguns minutos se passaram e Verônica chegou em casa. Alice ouviu sua mãe deixando as chaves na mesa, junto com a bolsa. Podia ouvir os passos se aproximarem até que...
- Oi meu anjo!
- Oi mãe. - Não havia um pingo de ânimo na voz de Alice.
- Nossa, o que aconteceu? Por que está tão pra baixo garota? - Sua mãe não aparentava perceber a tristeza que estava sentindo naquele momento, mas ela percebeu.
- Ah, uma dor de cabeça que senti quando acordei. Logo depois do colégio eu cheguei aqui e deitei, peguei no sono, e acordei com esse monstro comendo meu cérebro. - Alice não falava com dificuldade o que havia ocorrido, pois não havia nada que pudesse deixar claro o que sentia nestas frases e, de certa forma, não estava mentindo. Tudo parecia fácil, de repente.
- Entendo. Já tomou o remédio então?
- Ah, sim mãe. Estou melhor agora.
- É, posso ver. Já até está lendo suas páginas na internet, não é?
- Poisé... - Fez-se um silêncio. Alice ficou com medo de que ocorresse algo particularmente semelhante ao que aconteceu com Mariane de manhã.
- O que quer jantar? - Perguntou a mãe.
- Ah, tanto faz. Surpreenda-me! - Respondeu Alice, pensando rapidamente em virar o rosto, para disfarçar a cara que fez
- Ok então. - E a mãe foi para a cozinha.
Alice havia feito uma cara realmente intrigante quando sua mãe perguntou sobre o jantar. Não sabia se devia ficar feliz, ou triste. Pensava que sua mãe não havia percebido sua tristeza. "Isso deveria ser uma coisa boa", pensou ela, "mas por que então eu estou assim?" Se sentia decepcionada. Sim, decepcionada era a palavra que melhor descrevia o que sentia naquele momento. "Será que ela não percebeu mesmo como estou ou ela fingiu bem demais hoje? Ah... esquece...", e deixou este pensamento para trás. Talvez a única diferença deste pensamento para o de quando lembrava de sua conversa sobre a festa junina tenha sido que Alice conseguiu esquecer este mais rapidamente, e sem esforço algum.
Não estava feliz. E aquela noite passou como uma noite qualquer. Fez a lição para o dia seguinte, e dormiu.