Os dias passaram rápido. A cada dia Alice sentia que se aproximava mais de Clara. Estavam se tornando ótimas amigas. Era justamente o que queria. Queria cair na "zona de amizade", antes que tendesse para outro lado.
Alice havia se matriculado bem na época em que a professora de inglês estava prestes a ser substituída.
"Nossa, ela ensina muito mal!", diziam seus colegas. Alice não tinha como responder a isso. Mal conhecia a professora, mas sabia que ela realmente não era uma das melhores.
Os dias passaram.
Uma semana passou.
Numa manhã de segunda-feira uma adulta, até então desconhecida por Alice e seus colegas entrou na sala. Não sabiam o que era, mas já tinham uma ideia. A mulher era jovem, alta, loira. Parecia realmente uma americana. "Só faltava ter olhos azuis", pensou Alice, que gostou da nova professora, pela sua aparência.
Alice se levantou e foi conversar com a nova professora antes da aula começar.
- Oi
- Oh, olá. Ou melhor: Hello! - falou a novata.
- Ah, eu sabia! - Alice fez uma cara de quem já sabia o que ia acontecer - você é a nova professora de inglês, não é?
- Oh, yes. Indeed I am.
- Mmmm, could you please speak in portuguese before the class starts? - pediu Alice, em inglês, para que a professora falasse em português antes da aula começar.
Alice era realmente boa em inglês, apesar de nunca ter feito um curso fora do colégio. Tudo que ela sabia aprendera com filmes e com a internet. Vídeos, textos, trechos de livros e, é claro, músicas. Alice adorava músicas que eram calmas e que falavam de amor. "Amor: a doença mental mais perigosa que existe", pensou ela.
- Está bem, qual seu nome? - a nova professora finalmente falou em português.
- Alice, e o seu?
- Estella, com dois "L"s.
- Nossa, que nome bonito... - e Alice realmente tinha essa impressão.
O sinal tocou, e a aula começou. Alice tinha a sensação que havia começado com o pé direito a relação entre ela e sua professora. O que poderia dar errado?
segunda-feira, 10 de maio de 2010
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Recreio
Tocou o sinal do recreio. Todos se levantaram rapidamente para aproveitar ao máximo aqueles poucos minutos de liberdade que tinham no dia-a-dia no colégio. Alice não. Alice se levantou calmamente, andou calmamente. Estava toda calma. E não conseguia parar de pensar em Clara, e em como enfrentar essa nova situação.
Desceu as escadas, e chegou no pátio. Estava próxima a uma pilastra, de pé. Alice usava uma calça jeans, seu tênis branco com detalhes rosa. Usava pequenos brincos com uma lua pendurada em cada orelha. Luas pequenas e prateadas. Era um de seus brincos prediletos, gostava de usá-los para causar uma boa impressão.
Alice observava o comportamento das pessoas. Via um grupo de rapazes próximo à quadra conversando sobre algo que parecia ser uma festa bem comemorada, onde todos ficaram bêbados. Também via um grupo de garotas sentada numa mesa, conversando sobre a festa também, e sobre os rapazes que nela estavam. Alice tentava se imaginar numa festa assim, mas não conseguia. De forma alguma conseguia se imaginar bêbada, ou ficando com um rapaz bêbado. Seriam duas coisas impossíveis para ela.
Alice estava tão concentrada em sua análise que não percebeu o anjo se aproximar.
"Oi. Prazer, meu nome é Clara." Alice tomou um susto. Estava realmente distraída, e quando Clara falou, Alice até se mexeu um pouco para o lado.
"Oi, Clara. Prazer, Alice". Pensava "droga Alice! Tente parecer normal" enquanto se recuperava do susto.
"E então... com quem você vai lanchar?", perguntou Clara.
"Bom, com ninguém...", Alice respondeu. Geralmente quando lhe fazem perguntas desse tipo ela fica irritada, pois realmente é uma pergunta idiota. Pensava "se sou novata, é meu primeiro dia de aula, e estou sozinha observando as pessoas, é óbvio que não vou lanchar com ninguém a não ser que me convidem."
"Ótimo. Vem lanchar com a gente!" Alice não teve nem tempo para responder. Foi puxada pelo braço por Clara. Ela nem se importou com isso, e até gostou da situação. A mão quente de Clara, sua pele macia tocando a sua. Alice gostou disso.
Chegaram a uma mesa onde as amigas de Clara estavam. Se apresentaram e se sentaram. Foi um recreio normal, e Alice não conseguia dar muita confiança para as outras garotas. Só para Clara. Conversavam sobre coisas bobas, sobre coisas que garotas conversam. Foi um recreio normal. Um dos poucos recreios normais que Alice havia participado.
Não conseguia negar mais. Estava realmente gostando de Clara, e sem passar pela amizade. Não queria isso. Odiava isso. Não há nada pior do que gostar de alguém que não te gosta. Uma vez havia lido num livro que "o amor é se sentir leve, é amar o outro e não esperar que ele te ame de volta. Amar é ser você mesmo, e não sentir que deve amar o outro. Você só ama, e pronto." Gostava muito desse livro. Chama-se Desculpa Se Te Chamo de Amor. Não cansava de ler e reler este. Queria poder dizer que estava tudo bem, que não ligava de amar e não ser amada, mas não é verdade. Alice queria ser amada. Precisava ser amada.
O recreio acabou, e voltaram para a sala. O dia seguiu normalmente. Tiveram algumas aulas, e se dirigiam para a saída. No caminho, Alice viu um recado perto da portaria que chamou sua atenção:
Não requer experiência.
Não sabia porque, mas este anúncio em especial havia lhe chamado atenção. Não pensava num emprego naquele momento, e então continuou andando. Andando, andando... e foi para casa feliz. Fora mais um dia raro para Alice.
Desceu as escadas, e chegou no pátio. Estava próxima a uma pilastra, de pé. Alice usava uma calça jeans, seu tênis branco com detalhes rosa. Usava pequenos brincos com uma lua pendurada em cada orelha. Luas pequenas e prateadas. Era um de seus brincos prediletos, gostava de usá-los para causar uma boa impressão.
Alice observava o comportamento das pessoas. Via um grupo de rapazes próximo à quadra conversando sobre algo que parecia ser uma festa bem comemorada, onde todos ficaram bêbados. Também via um grupo de garotas sentada numa mesa, conversando sobre a festa também, e sobre os rapazes que nela estavam. Alice tentava se imaginar numa festa assim, mas não conseguia. De forma alguma conseguia se imaginar bêbada, ou ficando com um rapaz bêbado. Seriam duas coisas impossíveis para ela.
Alice estava tão concentrada em sua análise que não percebeu o anjo se aproximar.
"Oi. Prazer, meu nome é Clara." Alice tomou um susto. Estava realmente distraída, e quando Clara falou, Alice até se mexeu um pouco para o lado.
"Oi, Clara. Prazer, Alice". Pensava "droga Alice! Tente parecer normal" enquanto se recuperava do susto.
"E então... com quem você vai lanchar?", perguntou Clara.
"Bom, com ninguém...", Alice respondeu. Geralmente quando lhe fazem perguntas desse tipo ela fica irritada, pois realmente é uma pergunta idiota. Pensava "se sou novata, é meu primeiro dia de aula, e estou sozinha observando as pessoas, é óbvio que não vou lanchar com ninguém a não ser que me convidem."
"Ótimo. Vem lanchar com a gente!" Alice não teve nem tempo para responder. Foi puxada pelo braço por Clara. Ela nem se importou com isso, e até gostou da situação. A mão quente de Clara, sua pele macia tocando a sua. Alice gostou disso.
Chegaram a uma mesa onde as amigas de Clara estavam. Se apresentaram e se sentaram. Foi um recreio normal, e Alice não conseguia dar muita confiança para as outras garotas. Só para Clara. Conversavam sobre coisas bobas, sobre coisas que garotas conversam. Foi um recreio normal. Um dos poucos recreios normais que Alice havia participado.
Não conseguia negar mais. Estava realmente gostando de Clara, e sem passar pela amizade. Não queria isso. Odiava isso. Não há nada pior do que gostar de alguém que não te gosta. Uma vez havia lido num livro que "o amor é se sentir leve, é amar o outro e não esperar que ele te ame de volta. Amar é ser você mesmo, e não sentir que deve amar o outro. Você só ama, e pronto." Gostava muito desse livro. Chama-se Desculpa Se Te Chamo de Amor. Não cansava de ler e reler este. Queria poder dizer que estava tudo bem, que não ligava de amar e não ser amada, mas não é verdade. Alice queria ser amada. Precisava ser amada.
O recreio acabou, e voltaram para a sala. O dia seguiu normalmente. Tiveram algumas aulas, e se dirigiam para a saída. No caminho, Alice viu um recado perto da portaria que chamou sua atenção:
Precisa-se de prestador de serviços gerais.
Não requer experiência.
Tratar com a secretaria.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Primeira Aula em BH
Alice chegou em casa e dormiu com a imagem daquela garota na cabeça.
No dia seguinte já estava oficialmente matriculada no colégio. Seria seu primeiro dia de aula. Vestiu o uniforme do colégio, que surpreendentemente não era muito diferente do de seu último colégio. "Falta de criatividade", pensou Alice. Terminou de se arrumar e foi.
Não sabia explicar o porquê, mas naquele dia parecia mais feliz. Parecia que de repente tudo havia mudado. Estava realmente mais feliz. Talvez porque provavelmente veria a garota cujo nome não sabia. Talvez porque o dia amanheceu com ar agradável. Talvez porque não tinha que se preocupar com seu passado no novo colégio. Vários motivos.
Chegou ao novo colégio. Era uma construção consideravelmente antiga. Já havia até sido tombado como patrimônio histórico da cidade, mas não caía aos pedaços. Ocupava um espaço praticamente igual ao de seu antigo colégio.
Começou a subir as escadas. Suas aulas seriam no terceiro andar. "Mais exercícios, êêêê!", pensou Alice, com um certo tom de sarcasmo no final.
Entrou na sala. Poucas pessoas haviam chegado até então. Olhou para o relógio e percebeu que estava cedo. Sentou no fundo, perto de uma janela. Ela nem sabia que ali seria um bom lugar para observar o céu. Não havia sequer pensado nisso na hora de sentar lá.
Os minutos passavam. Faltavam apenas alguns para a aula começar. Alice não estava realmente preocupada com isso, demorou mas percebeu que a garota que havia visto no corredor no dia anterior entrou em sua sala logo na sua frente. Leve como um anjo. Bonita como tal. Mas com o cabelo preso, e uma roupa diferente. Alice não a reconheceu. Havia visto ela no corredor, mas não notou a presença do anjo. Talvez fosse pelo nervosismo do primeiro dia de aula. Ela se sentou numa carteira na frente, na mesma fileira que Alice.
Começou a aula.
Durante os intervalos entre as aulas alguns alunos começaram a conversar com Alice. Eram realmente interesseiros. Interessados na beleza de Alice. Pobres rapazes, não sabiam da verdade. Começaram com a bateria de perguntas. Foram as de sempre: "de onde você veio?", "de qual colégio?", "de qual cidade?" Alice não ligava para estas perguntas, afinal de contas já sabia que seriam feitas. Sentiu que chegou sua hora de perguntar:
- Ei, qual é o nome daquela menina ali?
- Ah, a que está na mesma fileira que você? Lá na frente? O nome dela é Clara - respondeu um dos rapazes que conversava com ela.
Do outro da sala acontecia o mesmo. Uma garota que havia falado com Alice dizia para Clara o nome da novata. Parecia que tinham medo de conversar. Havia algo realmente estranho entre elas, e não apenas do ponto de vista de Alice. Mas uma hora ou outra elas teriam que conversar.
No dia seguinte já estava oficialmente matriculada no colégio. Seria seu primeiro dia de aula. Vestiu o uniforme do colégio, que surpreendentemente não era muito diferente do de seu último colégio. "Falta de criatividade", pensou Alice. Terminou de se arrumar e foi.
Não sabia explicar o porquê, mas naquele dia parecia mais feliz. Parecia que de repente tudo havia mudado. Estava realmente mais feliz. Talvez porque provavelmente veria a garota cujo nome não sabia. Talvez porque o dia amanheceu com ar agradável. Talvez porque não tinha que se preocupar com seu passado no novo colégio. Vários motivos.
Chegou ao novo colégio. Era uma construção consideravelmente antiga. Já havia até sido tombado como patrimônio histórico da cidade, mas não caía aos pedaços. Ocupava um espaço praticamente igual ao de seu antigo colégio.
Começou a subir as escadas. Suas aulas seriam no terceiro andar. "Mais exercícios, êêêê!", pensou Alice, com um certo tom de sarcasmo no final.
Entrou na sala. Poucas pessoas haviam chegado até então. Olhou para o relógio e percebeu que estava cedo. Sentou no fundo, perto de uma janela. Ela nem sabia que ali seria um bom lugar para observar o céu. Não havia sequer pensado nisso na hora de sentar lá.
Os minutos passavam. Faltavam apenas alguns para a aula começar. Alice não estava realmente preocupada com isso, demorou mas percebeu que a garota que havia visto no corredor no dia anterior entrou em sua sala logo na sua frente. Leve como um anjo. Bonita como tal. Mas com o cabelo preso, e uma roupa diferente. Alice não a reconheceu. Havia visto ela no corredor, mas não notou a presença do anjo. Talvez fosse pelo nervosismo do primeiro dia de aula. Ela se sentou numa carteira na frente, na mesma fileira que Alice.
Começou a aula.
Durante os intervalos entre as aulas alguns alunos começaram a conversar com Alice. Eram realmente interesseiros. Interessados na beleza de Alice. Pobres rapazes, não sabiam da verdade. Começaram com a bateria de perguntas. Foram as de sempre: "de onde você veio?", "de qual colégio?", "de qual cidade?" Alice não ligava para estas perguntas, afinal de contas já sabia que seriam feitas. Sentiu que chegou sua hora de perguntar:
- Ei, qual é o nome daquela menina ali?
- Ah, a que está na mesma fileira que você? Lá na frente? O nome dela é Clara - respondeu um dos rapazes que conversava com ela.
Do outro da sala acontecia o mesmo. Uma garota que havia falado com Alice dizia para Clara o nome da novata. Parecia que tinham medo de conversar. Havia algo realmente estranho entre elas, e não apenas do ponto de vista de Alice. Mas uma hora ou outra elas teriam que conversar.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Novas Águas
"Por que sempre que me apaixono é por alguém que já é próximo a mim? Isso é tão errado. É sempre a mesma história: 'somos apenas amigas', e tal. Isso quando não dá certo. Oh, Fernanda... se você soubesse o tamanho da saudade de que sinto de você. Se soubesse o buraco que foi feito em mim quando nos separamos. Me sinto completamente vazia. Não quero, não gosto, de admitir isso, mas é verdade.
Eu queria nunca ter te conhecido. Assim eu não sofreria assim. E você, se estiver sofrendo também, não sofreria. Destino desgraçado." - E assim foi o começo do dia em que Alice e sua mãe saíram para procurar um bom colégio para ela.
Não demoraram muito, encontraram um colégio católico, porém nada radical, próximo ao centro da cidade, e mais importante ainda: perto da casa de Alice. Nem tanto. Ficava ainda a aproximadamente 9 quarteirões de casa, mas o suficiente para ir a pé.
Era época de soma de notas do primeiro trimestre naquele colégio. Alice e sua mãe subiam as escadas do mesmo, e encontravam alunos nos corredores. Alguns apressados, com medo de algum professor carrasco, outros não se importando se tinham aulas ou sequer se tinham algo para se fazer. "Que zona!" pensou Alice.
Nos corredores Alice avistou uma menina com cabelos negros e olhos bem escuros, que contrastavam com uma pele alva e delicada. Tinha mais ou menos o tamanho de Alice, traços finos e leveza ao andar. Possuía aparência tamanha que Alice a assemelhou a um anjo. Não se apaixonou à primeira vista por aquele anjo. Pelo menos não pela pessoa, mas pelo corpo, pela aparência.
- Que linda... - chegou a sussurrar para si. Mal sabia Alice que aquela menina, tão bonita, tão angelical, viria a ser sua colega. Sua amiga. Seu próximo amor impossível. Mas Alice havia tomado uma decisão: de que não iria mais se declarar para nenhuma garota. Nenhuma. Não importasse o desejo dela.
Aquele anjo tinha um nome. Um nome brilhante. Bonito. Simples. Era Clara.
Eu queria nunca ter te conhecido. Assim eu não sofreria assim. E você, se estiver sofrendo também, não sofreria. Destino desgraçado." - E assim foi o começo do dia em que Alice e sua mãe saíram para procurar um bom colégio para ela.
Não demoraram muito, encontraram um colégio católico, porém nada radical, próximo ao centro da cidade, e mais importante ainda: perto da casa de Alice. Nem tanto. Ficava ainda a aproximadamente 9 quarteirões de casa, mas o suficiente para ir a pé.
Era época de soma de notas do primeiro trimestre naquele colégio. Alice e sua mãe subiam as escadas do mesmo, e encontravam alunos nos corredores. Alguns apressados, com medo de algum professor carrasco, outros não se importando se tinham aulas ou sequer se tinham algo para se fazer. "Que zona!" pensou Alice.
Nos corredores Alice avistou uma menina com cabelos negros e olhos bem escuros, que contrastavam com uma pele alva e delicada. Tinha mais ou menos o tamanho de Alice, traços finos e leveza ao andar. Possuía aparência tamanha que Alice a assemelhou a um anjo. Não se apaixonou à primeira vista por aquele anjo. Pelo menos não pela pessoa, mas pelo corpo, pela aparência.
- Que linda... - chegou a sussurrar para si. Mal sabia Alice que aquela menina, tão bonita, tão angelical, viria a ser sua colega. Sua amiga. Seu próximo amor impossível. Mas Alice havia tomado uma decisão: de que não iria mais se declarar para nenhuma garota. Nenhuma. Não importasse o desejo dela.
Aquele anjo tinha um nome. Um nome brilhante. Bonito. Simples. Era Clara.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Noite Fria
Primeira noite em "Beagá". Alice não ficou impressionada com a quantidade de prédios, ruas, e obviamente de poluição de uma das maiores capitais do Brasil.
Alice sonhou com Fernanda logo na primeira noite. Lembrou que provavelmente nunca mais a veria, e não por causa da distância, mas por causa do que havia acontecido entre elas. Se sentia uma pessoa fraca ao chorar, mesmo sabendo que não o era. Não sabia explicar este sentimento. Alice gostava de chorar. Gostava de descarregar sua tristeza em lágrimas. E apesar disso ainda achava errado chorar. Achava que isso era algum sinal de fraqueza. Especialmente nos momentos em que esta vontade vem e você não esperava por ela.
Acordou. Era seu primeiro dia em Belo Horizonte. Sua mãe ainda não havia definido um colégio para ela. Seria um dia livre. Ou quase. Combinaram de aproveitar o dia para se ajustarem ao novo apartamento, que era bastante similar ao anterior: era num prédio alto, claro, com ar "chique". Não é atoa que Alice achou a transição de ambiente bem confortável.
Enquanto retirava suas coisas das caixas (as que estavam escritas "Coisas de Alice" somavam-se em um incrível número de apenas duas caixas) se deparou com um gato. Uma miniatura de gato. Lembrou de Mariane. "Aquela vadia" - e não pensou duas vezes, jogou o presente no lixo.
A noite chegou. Novamente aquela noite fria. Típica da época em Belo Horizonte, com dias quentes e noites frias. Alice continuava a pensar em sua vida em Betim. Queria esquecer aquilo. Mas quanto mais tentava esquecer, mais se lembrava. Mais se lembrava de Mariane e os problemas que ela lhe causara. A dor que lhe causara. Se lembrava ainda mais de Fernanda. E a dor que as duas sofreram, mas que Alice ainda achava que sofria mais. E sofria mesmo. A alguns quilômetros dali Fernanda dormia tranquilamente, sem nenhum peso na consciência, de alguma forma.
Alice ficava impressionada com as pessoas, e pensava que conhecia Fernanda. Mas se soubesse que remorso nenhum sobrou, ficaria mais triste. Mais que o normal.
Alice sonhou com Fernanda logo na primeira noite. Lembrou que provavelmente nunca mais a veria, e não por causa da distância, mas por causa do que havia acontecido entre elas. Se sentia uma pessoa fraca ao chorar, mesmo sabendo que não o era. Não sabia explicar este sentimento. Alice gostava de chorar. Gostava de descarregar sua tristeza em lágrimas. E apesar disso ainda achava errado chorar. Achava que isso era algum sinal de fraqueza. Especialmente nos momentos em que esta vontade vem e você não esperava por ela.
Acordou. Era seu primeiro dia em Belo Horizonte. Sua mãe ainda não havia definido um colégio para ela. Seria um dia livre. Ou quase. Combinaram de aproveitar o dia para se ajustarem ao novo apartamento, que era bastante similar ao anterior: era num prédio alto, claro, com ar "chique". Não é atoa que Alice achou a transição de ambiente bem confortável.
Enquanto retirava suas coisas das caixas (as que estavam escritas "Coisas de Alice" somavam-se em um incrível número de apenas duas caixas) se deparou com um gato. Uma miniatura de gato. Lembrou de Mariane. "Aquela vadia" - e não pensou duas vezes, jogou o presente no lixo.
A noite chegou. Novamente aquela noite fria. Típica da época em Belo Horizonte, com dias quentes e noites frias. Alice continuava a pensar em sua vida em Betim. Queria esquecer aquilo. Mas quanto mais tentava esquecer, mais se lembrava. Mais se lembrava de Mariane e os problemas que ela lhe causara. A dor que lhe causara. Se lembrava ainda mais de Fernanda. E a dor que as duas sofreram, mas que Alice ainda achava que sofria mais. E sofria mesmo. A alguns quilômetros dali Fernanda dormia tranquilamente, sem nenhum peso na consciência, de alguma forma.
Alice ficava impressionada com as pessoas, e pensava que conhecia Fernanda. Mas se soubesse que remorso nenhum sobrou, ficaria mais triste. Mais que o normal.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Mudanças
O fim de março já chegava, e nem Alice conseguia acreditar que tanta coisa havia ocorrido em sua vida até aquele dia. Sua vida era diferente de outras meninas, é claro.
- Alice!
- Oi?
- Tenho uma surpresa para você querida! - gritou Verônica ao entrar no apartamento, pela sala.
- Que é? - Alice perguntava com o ânimo de um robô em depressão.
- Nossa, que ânimo eim! Bom, não sei como vão as coisas no colégio para você mas...
- Vão ruins, como sempre, se pergunta sobre meus amigos. As notas você sabe, só não estou bem nas exatas.
- Bom, sim. E acho que você ficará feliz em saber que fui promovida no trabalho.
- Que bom mãe - Alice tentava, mas não conseguia de forma alguma demonstrar alguma emoção com aquela notícia. Para falar a verdade nem se importava com o trabalho de sua mãe. O simples fato de ter comida, uma casa, saúde e uma boa educação já eram o suficiente para que ela não se preocupasse com isso. - mas por que você disse que eu ficaria feliz? Você só diz isso quando é algo que me deixa realmente feliz.
- Vamos nos mudar, Alice. - fez-se silêncio
- Quê?
- Você vai ver, vai ser bom para nós duas. Vamos começar uma nova etapa em nossas vidas, podemos começar do zero, o que acha?
- E-Eu... acho legal. - Alice não se importava. Ficar em Betim* ou não já não era mais importante para ela. E se pudesse começar do zero, não teria nada a perder.
Começaram a embalar seus pertences. Mãe e filha, juntas. Em uma semana já estavam longe dali. Longe dos problemas. Longe do passado. Longe de Mariane. Longe de Fernanda. E é claro que Alice ainda sentia saudades de Fernanda.
____________
*Betim é um município brasileiro do estado de Minas Gerais e faz parte da Região Metropolitana de Belo Horizonte.
- Alice!
- Oi?
- Tenho uma surpresa para você querida! - gritou Verônica ao entrar no apartamento, pela sala.
- Que é? - Alice perguntava com o ânimo de um robô em depressão.
- Nossa, que ânimo eim! Bom, não sei como vão as coisas no colégio para você mas...
- Vão ruins, como sempre, se pergunta sobre meus amigos. As notas você sabe, só não estou bem nas exatas.
- Bom, sim. E acho que você ficará feliz em saber que fui promovida no trabalho.
- Que bom mãe - Alice tentava, mas não conseguia de forma alguma demonstrar alguma emoção com aquela notícia. Para falar a verdade nem se importava com o trabalho de sua mãe. O simples fato de ter comida, uma casa, saúde e uma boa educação já eram o suficiente para que ela não se preocupasse com isso. - mas por que você disse que eu ficaria feliz? Você só diz isso quando é algo que me deixa realmente feliz.
- Vamos nos mudar, Alice. - fez-se silêncio
- Quê?
- Você vai ver, vai ser bom para nós duas. Vamos começar uma nova etapa em nossas vidas, podemos começar do zero, o que acha?
- E-Eu... acho legal. - Alice não se importava. Ficar em Betim* ou não já não era mais importante para ela. E se pudesse começar do zero, não teria nada a perder.
Começaram a embalar seus pertences. Mãe e filha, juntas. Em uma semana já estavam longe dali. Longe dos problemas. Longe do passado. Longe de Mariane. Longe de Fernanda. E é claro que Alice ainda sentia saudades de Fernanda.
____________
*Betim é um município brasileiro do estado de Minas Gerais e faz parte da Região Metropolitana de Belo Horizonte.
[Quase] Curada
As manhãs passavam. As tardes passavam. As noites passavam. Eram todas iguais para Alice.
Tudo ia tão bem, e agora sua vida parecia que havia sido mecanizada novamente. A felicidade de antes não mais existia. O brilho de seus olhos se esvaiu quase completamente. Só faltava o brilho da esperança, que nem ela sabia que ainda possuía. Sua vontade de viver se foi. Não havia mais prósito naquilo tudo. Pra quê ir ao colégio? Para que comer? No final o resultado será o mesmo: a morte.
As semanas passaram. A ferida aos poucos era curada. Cada dia era mais um ponto cicatrizado. Alice voltou a ser o que era antes de Mariane e Fernanda. Voltou a ser uma menina aparentemente normal. Por enquanto.
Tudo ia tão bem, e agora sua vida parecia que havia sido mecanizada novamente. A felicidade de antes não mais existia. O brilho de seus olhos se esvaiu quase completamente. Só faltava o brilho da esperança, que nem ela sabia que ainda possuía. Sua vontade de viver se foi. Não havia mais prósito naquilo tudo. Pra quê ir ao colégio? Para que comer? No final o resultado será o mesmo: a morte.
As semanas passaram. A ferida aos poucos era curada. Cada dia era mais um ponto cicatrizado. Alice voltou a ser o que era antes de Mariane e Fernanda. Voltou a ser uma menina aparentemente normal. Por enquanto.
sábado, 1 de maio de 2010
Absolutamente nada dura [para sempre]
Fernanda subia as escadas que haviam na entrada do colégio. Tudo parecia estar acontecendo em câmera lenta para Alice. Conseguia ver todos os detalhes de tudo que estava ao seu redor, mesmo que não lhe importassem naquela hora.
Seu amor estava a usar um tênis branco, com detalhes em azul. Uma calça jeans velha, mas bem cuidada, a blusa do uniforme, que estava cheia de respingos d'água nos ombros, por causa da chuva. O cabelo longo de Fernanda estava preso por um elástico preto, e ela usava brincos de argola de tamanho médio. Não era algo que chamava muito a atenção.
Fernanda corria para subir as escadas. Corria com a cabeça baixa, e por isso não viu Alice ali, parada. Quando saiu da chuva e entrou na portaria do colégio as duas se viram.
- Fêr? - perguntou Alice, quase gaguejando.
- Alice, por favor...
- Não Fernanda, por favor me deixe falar. - Fernanda estava começando a falar, mas não continuou. - Eu sei o que aconteceu. Mariane não devia ter feito isso. Mas por favor, eu não quero, eu não consigo enfrentar isso sozinha. Por favor...
- Me desculpe... mas não sei se consigo, se quero continuar com isso. - a bomba estava lançada. Alice sentiu um calafrio. Uma dor no coração. No instante que seu cérebro processou esta frase seu coração parou por um segundo. Tudo parou.
Fernanda continuou andando e entrou no colégio. Alice ficou parada na portaria, encarando o nada por algum tempo.
Alice não conseguia acreditar. Pela primeira vez havia encontrado a felicidade. Pela primeira e única vez até aquele dia. Tudo foi estragado por causa de uma única pessoa. Um único sentimento estragou aquilo tudo: a inveja.
Mariane sentia inveja de Fernanda. Os garotos do colégio tinham uma certa queda por ela, assim como tinham por Alice. Tinham. Agora não têm mais, e tudo por causa de uma fofoca. "Que filha da puta", pensou Alice. Queria ficar com raiva, apenas raiva. Mas a tristeza naquele momento era muito grande.
Sentou num dos degraus da escada. Não conseguia fazer nada. Queria ir para casa e esquecer aquele pesadelo. Queria acordar e descobrir que nada daquilo estava acontecendo.
- Alô? - Verônica, mãe de Alice, atende o celular
- M-Mãe? Vem me buscar aqui no colégio, por favor?
- Alice? O que aconteceu?
- Por favor! Não quero falar isso agora mãe... Por favor, venha logo... - e Alice finalizou aquela chamada.
Verônica buscou Alice no colégio sem dizer uma palavra até chegarem em casa.
- É sobre Fernanda, não é?
Alice não conseguia falar. Só fez que "sim" com a cabeça.
- Meu bem, sinto muito. Muito mesmo. Vamos subir, não vamos fazer nada hoje. Vou ligar para o serviço e dizer para meu assistente me substituir hoje.
"Obrigada." E essa foi a última palavra de Alice naquele dia.
Seu amor estava a usar um tênis branco, com detalhes em azul. Uma calça jeans velha, mas bem cuidada, a blusa do uniforme, que estava cheia de respingos d'água nos ombros, por causa da chuva. O cabelo longo de Fernanda estava preso por um elástico preto, e ela usava brincos de argola de tamanho médio. Não era algo que chamava muito a atenção.
Fernanda corria para subir as escadas. Corria com a cabeça baixa, e por isso não viu Alice ali, parada. Quando saiu da chuva e entrou na portaria do colégio as duas se viram.
- Fêr? - perguntou Alice, quase gaguejando.
- Alice, por favor...
- Não Fernanda, por favor me deixe falar. - Fernanda estava começando a falar, mas não continuou. - Eu sei o que aconteceu. Mariane não devia ter feito isso. Mas por favor, eu não quero, eu não consigo enfrentar isso sozinha. Por favor...
- Me desculpe... mas não sei se consigo, se quero continuar com isso. - a bomba estava lançada. Alice sentiu um calafrio. Uma dor no coração. No instante que seu cérebro processou esta frase seu coração parou por um segundo. Tudo parou.
Fernanda continuou andando e entrou no colégio. Alice ficou parada na portaria, encarando o nada por algum tempo.
Alice não conseguia acreditar. Pela primeira vez havia encontrado a felicidade. Pela primeira e única vez até aquele dia. Tudo foi estragado por causa de uma única pessoa. Um único sentimento estragou aquilo tudo: a inveja.
Mariane sentia inveja de Fernanda. Os garotos do colégio tinham uma certa queda por ela, assim como tinham por Alice. Tinham. Agora não têm mais, e tudo por causa de uma fofoca. "Que filha da puta", pensou Alice. Queria ficar com raiva, apenas raiva. Mas a tristeza naquele momento era muito grande.
Sentou num dos degraus da escada. Não conseguia fazer nada. Queria ir para casa e esquecer aquele pesadelo. Queria acordar e descobrir que nada daquilo estava acontecendo.
- Alô? - Verônica, mãe de Alice, atende o celular
- M-Mãe? Vem me buscar aqui no colégio, por favor?
- Alice? O que aconteceu?
- Por favor! Não quero falar isso agora mãe... Por favor, venha logo... - e Alice finalizou aquela chamada.
Verônica buscou Alice no colégio sem dizer uma palavra até chegarem em casa.
- É sobre Fernanda, não é?
Alice não conseguia falar. Só fez que "sim" com a cabeça.
- Meu bem, sinto muito. Muito mesmo. Vamos subir, não vamos fazer nada hoje. Vou ligar para o serviço e dizer para meu assistente me substituir hoje.
"Obrigada." E essa foi a última palavra de Alice naquele dia.
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