Primeira noite em "Beagá". Alice não ficou impressionada com a quantidade de prédios, ruas, e obviamente de poluição de uma das maiores capitais do Brasil.
Alice sonhou com Fernanda logo na primeira noite. Lembrou que provavelmente nunca mais a veria, e não por causa da distância, mas por causa do que havia acontecido entre elas. Se sentia uma pessoa fraca ao chorar, mesmo sabendo que não o era. Não sabia explicar este sentimento. Alice gostava de chorar. Gostava de descarregar sua tristeza em lágrimas. E apesar disso ainda achava errado chorar. Achava que isso era algum sinal de fraqueza. Especialmente nos momentos em que esta vontade vem e você não esperava por ela.
Acordou. Era seu primeiro dia em Belo Horizonte. Sua mãe ainda não havia definido um colégio para ela. Seria um dia livre. Ou quase. Combinaram de aproveitar o dia para se ajustarem ao novo apartamento, que era bastante similar ao anterior: era num prédio alto, claro, com ar "chique". Não é atoa que Alice achou a transição de ambiente bem confortável.
Enquanto retirava suas coisas das caixas (as que estavam escritas "Coisas de Alice" somavam-se em um incrível número de apenas duas caixas) se deparou com um gato. Uma miniatura de gato. Lembrou de Mariane. "Aquela vadia" - e não pensou duas vezes, jogou o presente no lixo.
A noite chegou. Novamente aquela noite fria. Típica da época em Belo Horizonte, com dias quentes e noites frias. Alice continuava a pensar em sua vida em Betim. Queria esquecer aquilo. Mas quanto mais tentava esquecer, mais se lembrava. Mais se lembrava de Mariane e os problemas que ela lhe causara. A dor que lhe causara. Se lembrava ainda mais de Fernanda. E a dor que as duas sofreram, mas que Alice ainda achava que sofria mais. E sofria mesmo. A alguns quilômetros dali Fernanda dormia tranquilamente, sem nenhum peso na consciência, de alguma forma.
Alice ficava impressionada com as pessoas, e pensava que conhecia Fernanda. Mas se soubesse que remorso nenhum sobrou, ficaria mais triste. Mais que o normal.
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