terça-feira, 6 de julho de 2010

Esclarecendo as coisas.

    No dia anterior, Alice viu Clara com Ricardo, um rapaz que Clara havia conhecido dentro de um ônibus, e que recentemente havia conseguido um emprego no colégio.
    Alice faltara 3 dias seguidos, por causa do choque. Estava novamente ferida, por dentro. Não conseguia mais aguentar. 

    Antes disso, depois de voltarem do recreio, Clara contou para Alice:
   - Foi assim: estávamos ontem na escada do colég... - Bastou isso para que Alice se levantasse, e saísse de sala, pedindo para ir para casa, pois se sentia mal. Não estava doente fisicamente.

Outro choque.

    Como sempre fazia, Alice se dirigiu ao colégio. O caminho que fazia de sua casa até este já havia se tornado tão comum que ela não era mais capaz de distinguir o tempo que levava para ir de um a outro. Era quase como se seu corpo andasse sozinho e ela pudesse se concentrar em outras coisas. Ver o gato que andava na rua. Ver outras garotas que passavam na rua.

    Alice chegou ao quarteirão do colégio e se aproximava da entrada, quando ouviu duas vozes familiares. Eram duas colegas de turma, que estavam sentadas na escada, conversando. Alice entrou na conversa. As meninas falavam de coisas variadas, dentre elas uma festa que ocorreria no final de semana. Alice se esforçou para parecer interessada, mas não conseguia, e só fazia parecer que estava fingindo. Por sorte, as duas perceberam isso, e mudaram de assunto. Começaram a falar de garotos, e Alice sabia fingir bem o interesse nisso.

    Os minutos se passavam. As três garotas tinham vontade de faltar aos primeiros horários, que eram de inglês. Todas eram boas em inglês. Alice viu um carro familiar se aproximando do colégio. Era o carro de Clara.
    Viu Clara descer do carro, subir as escadas.

    Clara foi até Alice:
    - Oi, Alice! E aí? O que aconteceu com você esses dias?!
    - Eu não estava me sentindo muito bem, Clara.
    - Ô, amiga. Eu tentei te ligar, mas não tive tempo. Você foi ao médico?
    - Não foi necessário.
    - Então você está melhor?
    Alice olhou Clara nos olhos. Como era possível alguém ser tão ingênua? Não era maldade de Clara, Alice sabia. Era apenas inocência.
    - Não. - Foi a resposta. Seca. Curta.
    - Alice, você está tão estranha... o que está acontecendo?
    Alice parou por algum tempo. Parecia travar uma enorme batalha em seu interior onde, qualquer que fosse o vencedor, uma parte de si sairia perdendo. Por fim:
    - Clara, você quer saber o que está acontecendo, não é? Pois eu vou te contar o que está acontecendo. Eu gosto de você, Clara. E eu não gosto como amiga. Eu realmente gosto de você. E saber sobre você e aquele cara... me... me... me...
     Alice não terminou o que tinha para dizer. Não foi preciso. Clara havia entendido tudo.

sábado, 26 de junho de 2010

Que sonho...

    Alice abriu os olhos. Se virou e encarou o relógio. Três e vinte e cinco da manhã. "Porra, ainda?" Não queria continuar acordada, queria aproveitar as últimas horas de sono que teria antes das aulas daquele dia. Os minutos passavam. Alice havia deitado às onze horas da noite do dia anterior, e num intervalo de duas horas ficava acordando, ansiosa, e o pior: sem saber o porque disso.
    Finalmente dormiu. Alice sonhava com Clara. Que estavam juntas andando num shopping grande e cheio de pessoas. Estavam indo a um show de uma banda que ambas gostavam, mas não conseguia ver bem qual era. Estavam felizes, e ao chegar no local onde haveria o show descobriram que fora cancelado. Não sabiam porque, mas foram para casa não tão tristes como as outras pessoas, e resolveram fazer outra coisa, como ver TV.
    Neste sonho, Alice tinha vontade de falar para Clara o que sentia de verdade, mas era difícil criar coragem.
    - Alice - disse Clara.
    - Oi?
    - Alice.
    - Clara? O que foi?
    - Alice!
    De repente tudo ficou escuro, e aos poucos clareando. Alice abria os olhos novamente, dessa vez sua mãe havia lhe chamado para tomar o café da manhã e se preparar para a aula.
    - Nossa, que sonho estranho...
    - Que sonho? - Verônica ouviu Alice comentando sobre seu sonho, e ficou curiosa para saber sobre o que era.
    - Ah, nada não mãe.
    - Sei...
    Mais uma manhã normal. Pelo menos o começo da manhã foi.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Fim de Semana em Branco

    Em casa, a sós, Alice refletia sobre seus dias em que passou em Belo Horizonte até aquele momento. Não havia ocorrido nada que considerasse ruim, além de ser atraída por Clara.
    Os minutos passavam e Alice fazia sua lição. De repente lembrou que haveria uma prova de matemática segunda-feira. Após isso, lembrou que teria provas durante todo o mês. Por último, e não menos importante, lembrou que não havia entendido nada da matéria. "Malditos determinantes, vão acabar comigo..." Decidiu estudar, mas a cada momento se distraía com alguma legenda no livro, algo que acontecia em sua rua, fora do prédio, lembrava de algum bombom que havia restado na geladeira. Qualquer coisa parecia ser um bom motivo para afastá-la daquele livro didático. Por fim, assumiu a falta de vontade e foi ver TV até a hora de dormir.

    Sábado.

    Domingo.

    Segunda-feira. Dia da prova. Alice estava estranhamente despreocupada, apesar de não ter estudado. Não se sentia confiante, mas não sentia medo. Estava indiferente. "Oi Alice, você está bem?" - Alice estava encostada numa parede do corredor, de frente para a porta da sala onde seria aplicada a prova. Na verdade, estava encostada em sua mochila, que estava fina por causa da ausência total de livros, que por sua vez estava encostada na parede. Alice imaginava aquilo como um "acolchoamento" para a parede. Enquanto isso, observava os detalhes da porta da sala. Parecia ter a mesma idade que o colégio. Não sabia o quanto, apenas que era antigo. Muito antigo. "An? Estou bem sim, é que estava pensando na prova, e no quanto eu deveria estar preocupada mas não estou" - Respondeu Alice, sem ter certeza do que falava. Afinal, sabia que não estava a pensar na prova. Não estava ligando para aquilo. Mas não se lembrava do que estava pensando. Poucas coisas a faziam se distrair tanto quanto pensar na pessoa em que se gosta, mas costuma-se lembrar disso, e ela não lembrava. "Estranho" - pensou Alice.
     Uma jovem de cerca de 30 anos caminhava pelo corredor usando um salto que fazia um barulho enorme ao pisar no chão. Não era feia, mas não havia despertado atenção de Alice. Em suas mãos estava o pacote com as provas da turma de Alice. Ela abriu a porta da sala e entrou, chamando a todos. Alice entrou também, junto com Clara e suas amigas.

     Era necessário deixar a mochila longe da carteira. Não era possível deixar o estojo com o material à vista. Somente lápis, caneta e borracha poderiam ficar em cima da carteira. "Quem foi o imbecil que inventou essa regra?" - Pensava Alice. - "Qualquer um pode escrever uma cola num pedaço de papel e colocar na manga, ou até mesmo na meia, que incompetência do caralho..." Era assim que Alice pensava. Coisas que são simples de se fazer e não eram bem feitas a deixavam meio chateada e meio irritada. A cada momento que se deparava com situações assim Alice se decepcionava mais com as pessoas.
    Alice e seus colegas se sentaram. Ela era a única garota com o nome começado em A em sua turma. Sentava na primeira carteira. Não haviam chances de colar ou de olhar para o lado. A vigia começou a distribuir as provas. Quando Alice recebe a sua, não consegue acreditar no que vê. Todos os exercícios da primeira página ela julgava saber responder. Mas ela não havia visto os outros.
    Tudo corria bem. Alice, apesar de não ter estudado, estava confiante de que tiraria uma nota boa seguindo aquele ritmo. A confiança estava em alta, até que percebe que a outra metade da prova era muito difícil para uma garota de 16 anos que não havia prestado atenção às aulas e não havia sequer estudado nos últimos dias.

    A manhã inteira foi utilizada para se fazer a prova. No final, Alice saiu desapontada, achava que se sairia bem. Apesar disso, não se sentia mal. Se sentia indiferente. A única coisa que se passava em sua mente era Clara. Alice a imaginava de todas as maneiras, sorrindo para ela. Um sonho. Após essa ideia, só pensava em ir para casa. Ir de encontro à cama e dormir até o dia seguinte.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Fragrâncias do Amor

    A primeira aula do dia começou. Alice, Clara, e seus colegas estavam se sentando enquanto o professor se dirigia para sua mesa. Era uma aula de geografia. Tudo começava normalmente. O professor tentava se lembrar onde havia parado na última aula, e alguém do outro lado da sala respondeu.
    Alice não se importava com a aula de geografia. Era uma das matérias que mais tinha facilidade, apesar de não gostar. Seus colegas viviam perguntando para ela como ela conseguia se sair bem em algo que não gostava, e ela simplesmente respondia que não sabia. No fundo sabia. E achava seus colegas que iam mal na matéria um bando de descerebrados que não sabiam sequer usar uma lógica simples para resolver as questões. Alice chamava essa lógica de Lógica da Religião e Economia. Como o próprio nome diz, a lógica se baseia na religião e na economia envolvidos. Dependendo da matéria um influencia o outro, ou às vezes não. Era simples, na maioria das vezes a questão girava em volta do dinheiro, e às vezes da religião. Alice não conseguia compreender a dificuldade de colocar isso na cabeça, e no final sempre deixava para lá. Tinha mais com o que se preocupar.
    Neste dia Alice decidiu sentar atrás de Clara, por quem já sabia sentir certa atração. E sabia que não iria acontecer nada. Mesmo assim, sentia certo prazer de sentar próximo de Clara, conversar com ela.

    Passou algum tempo. A aula passava rapidamente e Alice estava envolvida de pensamentos aleatórios, que não tinham uma importância para ela. Dentre eles, como a Rússia mantém o domínio sobre toda a área da Sibéria, sendo que não há ninguém lá. Realmente, nada de muito importante ou relevante para ela.

    Alice conseguia sentir o perfume que Clara usava. Estava bem curvada sobre a carteira, como se estivesse pronta para dormir durante a aula. O que não lhe pareceu uma má ideia quando este pensamento veio-lhe à cabeça. Mas preferiu ficar acordada e continuar a sentir aquele cheiro maravilhoso.
     - Ei Clara.
     - Oi - Clara se virou para Alice.
     - Que perfume é esse?
     - Hum, o nome eu não sei direito como pronunciar, mas vou escrever aqui para você. - No momento que acabou de falar, Clara começou a procurar algum pedaço de papel que não estivesse completamente intacto em seu caderno.
     - Aqui, escreve no meu caderno. - Alice já havia pego seu caderno e entregava para Clara.
     Quando Clara devolveu o caderno para Alice, ela pôde ler "egeo dolce for woman". Queria muito aquele perfume, e não para usar. Mas para apreciar aquele cheiro que lhe fazia lembrar da pessoa que gostava de ver. O cheiro parecia carregar pedaços de memória que a faziam lembrar da pessoa. E neste caso, era de Clara.

     Não houve muito mais coisas fora do normal neste dia. Alice lembrou que a festa junina de seu colégio iria ocorrer em menos de três semanas, mas não estava preocupada. Não queria que acontecesse o mesmo que ocorreu entre ela e Mariana. Lembrar disso ainda doía um pouco. Doía pensar em como era. De repente a vontade de comprar aquele perfume desapareceu. Alice pegou seu caderno e viu o nome do perfume escrito numa página e a arrancou, amassou e jogou na rua, que estava molhada pela chuva da noite anterior.
     Finalmente foi para casa. Seguindo o caminho de sempre, mas dessa vez com um olhar vazio para o chão durante todo o percurso. Um olhar que Alice não conseguia ter desde quando ainda morava em Betim.

domingo, 13 de junho de 2010

Manhã Fria

    Era sexta-feira. Alice começou o dia normalmente. Acordou, sentou na cama e refletiu sobre o que queria naquele dia. Sempre algo que não era possível. Tomou seu banho, se arrumou, e seguiu seu caminho até a escola.

    Fazia frio em Belo Horizonte. Os serviços de meteorologia registraram temperaturas de dez graus na capital, temperatura que era fora do comum para seus habitantes, e menos ainda para Alice, que não morava ali desde pequena.

    Alice chegou ao colégio. Passou pelo portão da frente, subiu as escadas. Tudo feito automaticamente. Ao longo do tempo as ações que Alice fazia todos os dias iam se tornando cada vez mais automáticas, dando-a mais tempo para pensar. Isso tinha seu lado bom e seu lado ruim. Infelizmente Alice só pensava no lado ruim, que era o de refletir sobre coisas que não queria. O lado bom, de poder pensar em algo sem ser incomodada, não era nem cogitado por ela.

    Clara foi a primeira amiga que Alice viu quando entrou na sala naquela sexta-feira. Estava sentada numa carteira próxima à janela, num dos cantos da sala. Alice escolheu sentar atrás dela. Queria conversar com Clara. Não era nada sério, e nem sabia por onde começar ou o que falar, mas queria conversar com alguém que gostasse.
    Alice tinha este defeito. Por mais que ficasse chateada ao conversar com uma menina que só fala sobre homens, ela aproveitava esses momentos. Aproveitava a atenção que lhe davam. O simples prazer de conversar, de estar perto, já a satisfazia. O amor que era transmitido para Alice era tão pouco, ou tão diferente, que apenas estar perto e conversar com uma pessoa já a satisfazia. Mas não qualquer pessoa. Alguém que ela gostasse muito.
    - Ei Alice! - Clara disse.
    - Oi Clara. - Alice retribui.
    - Como vão as coisas?
    - Um pouco cansada desse caminho que faço. É meio chato fazer o mesmo caminho duas vezes por dia por todos os dias do ano letivo. E esse frio também está me matando.
    - Poisé, somos duas. Esse frio realmente acaba com qualquer um. Parece até que a cada ano fica mais frio nessa época. Ainda bem que venho de carro para o colégio.
    - Sortuda.
    E riram. Foi um momento feliz naquele dia. Alice gostava desses momentos. Mas ficava triste quando lembrava que eram apenas momentos, e que tudo voltaria ao normal depois.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Chegava o Dia

    Os dias passavam. Alice havia encontrado Clara com um rapaz que começou a trabalhar no colégio. Apesar de ficar feliz por ela, não pode deixar de se sentir mal por tudo aquilo. Se sentia só, mais uma vez, como sempre foi na maior parte do tempo.
    Alice não tinha cabeça mais para pensar nos estudos. No colégio agia como um robô, seu corpo assistia as aulas, mas ela pensava em como seria o dia seguinte. Pensava em como poderia ser, e como queria que fosse. Eram ideias tolas, com coisas que só poderiam ocorrer em filmes de romance. Suspirou, e por um segundo voltou a prestar atenção na aula, em seguida repetia-se o processo.

    Começo de Julho. Havia quase um mês que Alice não prestava atenção às aulas. Seu rendimento havia caído muito, mas ela não ligava. Não lhe importavam o que os professores pensavam dela. Alice pensava apenas em o que fazer para se ocupar em casa.

   Era uma noite fria. O inverno havia se instalado em Belo Horizonte. Estava impossível ficar sem alguma proteção para o frio naqueles dias, de noite e de manhã principalmente. Na manhã deste dia Alice acordou com calafrios. Não queria tomar banho, mas não se sentia limpa. Se sentia suja e com frio, e queria se sentir ao menos limpa, já que podia se esquentar depois. Saiu do banho, se arrumou e tomou seu café, e foi para a aula.
    Durante o caminho Alice sentia suas mãos ficarem cada vez mais frias por causa do vento que batia de leve. Aquela sensação, que se parecia com o passar dos dedos na lateral de uma navalha fria, pronta para cortar algo, era agradável para Alice. Imaginou uma frase pouco poética ("este frio, corta-me como uma faca de prata, como que um assassino que sabe quando sua vítima não tem nada a perder").
    O dia passou como todos os outros, nada de especial aconteceu.
    A noite chegou. Alice estava sentada na frente do computador. Estava a visitar alguns blogs de humor, que não conseguiam alegrá-la muito, mas a mantinham com ânimo que consideraria "suficiente". Tudo ocorria como os dias anteriores, até que leu algo que a fez lembrar d'O Dia dos Namorados.
    Seria seu décimo sexto dia dos namorados, e desde que passou a gostar de outras pessoas, seria seu sexto dia dos namorados que passaria só.
    Alice não conseguia disfarçar a tristeza que sentia. Desligou o computador, e foi dormir, tentando não pensar nisso. Mas é claro que ela pensou a noite inteira neste assunto. Durante a noite, tinha pesadelos, e pela manhã tinha sorte. Sorte de não lembrá-los.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

New Teacher

     Os dias passaram rápido. A cada dia Alice sentia que se aproximava mais de Clara. Estavam se tornando ótimas amigas. Era justamente o que queria. Queria cair na "zona de amizade", antes que tendesse para outro lado.
     Alice havia se matriculado bem na época em que a professora de inglês estava prestes a ser substituída.
     "Nossa, ela ensina muito mal!", diziam seus colegas. Alice não tinha como responder a isso. Mal conhecia a professora, mas sabia que ela realmente não era uma das melhores.
     Os dias passaram.
     Uma semana passou.
    
     Numa manhã de segunda-feira uma adulta, até então desconhecida por Alice e seus colegas entrou na sala. Não sabiam o que era, mas já tinham uma ideia. A mulher era jovem, alta, loira. Parecia realmente uma americana. "Só faltava ter olhos azuis", pensou Alice, que gostou da nova professora, pela sua aparência.
     Alice se levantou e foi conversar com a nova professora antes da aula começar.
     - Oi
     - Oh, olá. Ou melhor: Hello! - falou a novata.
     - Ah, eu sabia! - Alice fez uma cara de quem já sabia o que ia acontecer - você é a nova professora de inglês, não é?
     - Oh, yes. Indeed I am.
     - Mmmm, could you please speak in portuguese before the class starts? - pediu Alice, em inglês, para que a professora falasse em português antes da aula começar.

     Alice era realmente boa em inglês, apesar de nunca ter feito um curso fora do colégio. Tudo que ela sabia aprendera com filmes e com a internet. Vídeos, textos, trechos de livros e, é claro, músicas. Alice adorava músicas que eram calmas e que falavam de amor. "Amor: a doença mental mais perigosa que existe", pensou ela.

     - Está bem, qual seu nome? - a nova professora finalmente falou em português.
     - Alice, e o seu?
     - Estella, com dois "L"s.
     - Nossa, que nome bonito... - e Alice realmente tinha essa impressão.

     O sinal tocou, e a aula começou. Alice tinha a sensação que havia começado com o pé direito a relação entre ela e sua professora. O que poderia dar errado?

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Recreio

    Tocou o sinal do recreio. Todos se levantaram rapidamente para aproveitar ao máximo aqueles poucos minutos de liberdade que tinham no dia-a-dia no colégio. Alice não. Alice se levantou calmamente, andou calmamente. Estava toda calma. E não conseguia parar de pensar em Clara, e em como enfrentar essa nova situação.
    Desceu as escadas, e chegou no pátio. Estava próxima a uma pilastra, de pé. Alice usava uma calça jeans, seu tênis branco com detalhes rosa. Usava pequenos brincos com uma lua pendurada em cada orelha. Luas pequenas e prateadas. Era um de seus brincos prediletos, gostava de usá-los para causar uma boa impressão.
    Alice observava o comportamento das pessoas. Via um grupo de rapazes próximo à quadra conversando sobre algo que parecia ser uma festa bem comemorada, onde todos ficaram bêbados. Também via um grupo de garotas sentada numa mesa, conversando sobre a festa também, e sobre os rapazes que nela estavam. Alice tentava se imaginar numa festa assim, mas não conseguia. De forma alguma conseguia se imaginar bêbada, ou ficando com um rapaz bêbado. Seriam duas coisas impossíveis para ela.
    Alice estava tão concentrada em sua análise que não percebeu o anjo se aproximar.
    "Oi. Prazer, meu nome é Clara." Alice tomou um susto. Estava realmente distraída, e quando Clara falou, Alice até se mexeu um pouco para o lado.
    "Oi, Clara. Prazer, Alice". Pensava "droga Alice! Tente parecer normal" enquanto se recuperava do susto.
    "E então... com quem você vai lanchar?", perguntou Clara.
    "Bom, com ninguém...", Alice respondeu. Geralmente quando lhe fazem perguntas desse tipo ela fica irritada, pois realmente é uma pergunta idiota. Pensava "se sou novata, é meu primeiro dia de aula, e estou sozinha observando as pessoas, é óbvio que não vou lanchar com ninguém a não ser que me convidem."
    "Ótimo. Vem lanchar com a gente!" Alice não teve nem tempo para responder. Foi puxada pelo braço por Clara. Ela nem se importou com isso, e até gostou da situação. A mão quente de Clara, sua pele macia tocando a sua. Alice gostou disso.
    Chegaram a uma mesa onde as amigas de Clara estavam. Se apresentaram e se sentaram. Foi um recreio normal, e Alice não conseguia dar muita confiança para as outras garotas. Só para Clara. Conversavam sobre coisas bobas, sobre coisas que garotas conversam. Foi um recreio normal. Um dos poucos recreios normais que Alice havia participado.
    Não conseguia negar mais. Estava realmente gostando de Clara, e sem passar pela amizade. Não queria isso. Odiava isso. Não há nada pior do que gostar de alguém que não te gosta. Uma vez havia lido num livro que "o amor é se sentir leve, é amar o outro e não esperar que ele te ame de volta. Amar é ser você mesmo, e não sentir que deve amar o outro. Você só ama, e pronto." Gostava muito desse livro. Chama-se Desculpa Se Te Chamo de Amor. Não cansava de ler e reler este. Queria poder dizer que estava tudo bem, que não ligava de amar e não ser amada, mas não é verdade. Alice queria ser amada. Precisava ser amada.
    O recreio acabou, e voltaram para a sala. O dia seguiu normalmente. Tiveram algumas aulas, e se dirigiam para a saída. No caminho, Alice viu um recado perto da portaria que chamou sua atenção:

Precisa-se de prestador de serviços gerais.

Não requer experiência.

Tratar com a secretaria.

    Não sabia porque, mas este anúncio em especial havia lhe chamado atenção. Não pensava num emprego naquele momento, e então continuou andando. Andando, andando... e foi para casa feliz. Fora mais um dia raro para Alice.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Primeira Aula em BH

    Alice chegou em casa e dormiu com a imagem daquela garota na cabeça.

    No dia seguinte já estava oficialmente matriculada no colégio. Seria seu primeiro dia de aula. Vestiu o uniforme do colégio, que surpreendentemente não era muito diferente do de seu último colégio. "Falta de criatividade", pensou Alice. Terminou de se arrumar e foi.
    Não sabia explicar o porquê, mas naquele dia parecia mais feliz. Parecia que de repente tudo havia mudado. Estava realmente mais feliz. Talvez porque provavelmente veria a garota cujo nome não sabia. Talvez porque o dia amanheceu com ar agradável. Talvez porque não tinha que se preocupar com seu passado no novo colégio. Vários motivos.

    Chegou ao novo colégio. Era uma construção consideravelmente antiga. Já havia até sido tombado como patrimônio histórico da cidade, mas não caía aos pedaços. Ocupava um espaço praticamente igual ao de seu antigo colégio.

    Começou a subir as escadas. Suas aulas seriam no terceiro andar. "Mais exercícios, êêêê!", pensou Alice, com um certo tom de sarcasmo no final.
    Entrou na sala. Poucas pessoas haviam chegado até então. Olhou para o relógio e percebeu que estava cedo. Sentou no fundo, perto de uma janela. Ela nem sabia que ali seria um bom lugar para observar o céu. Não havia sequer pensado nisso na hora de sentar lá.
    Os minutos passavam. Faltavam apenas alguns para a aula começar. Alice não estava realmente preocupada com isso, demorou mas percebeu que a garota que havia visto no corredor no dia anterior entrou em sua sala logo na sua frente. Leve como um anjo. Bonita como tal. Mas com o cabelo preso, e uma roupa diferente. Alice não a reconheceu. Havia visto ela no corredor, mas não notou a presença do anjo. Talvez fosse pelo nervosismo do primeiro dia de aula. Ela se sentou numa carteira na frente, na mesma fileira que Alice.
    Começou a aula.
   
    Durante os intervalos entre as aulas alguns alunos começaram a conversar com Alice. Eram realmente interesseiros. Interessados na beleza de Alice. Pobres rapazes, não sabiam da verdade. Começaram com a bateria de perguntas. Foram as de sempre: "de onde você veio?", "de qual colégio?", "de qual cidade?" Alice não ligava para estas perguntas, afinal de contas já sabia que seriam feitas. Sentiu que chegou sua hora de perguntar:
    - Ei, qual é o nome daquela menina ali?
    - Ah, a que está na mesma fileira que você? Lá na frente? O nome dela é Clara - respondeu um dos rapazes que conversava com ela.
    Do outro da sala acontecia o mesmo. Uma garota que havia falado com Alice dizia para Clara o nome da novata. Parecia que tinham medo de conversar. Havia algo realmente estranho entre elas, e não apenas do ponto de vista de Alice. Mas uma hora ou outra elas teriam que conversar.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Novas Águas

    "Por que sempre que me apaixono é por alguém que já é próximo a mim? Isso é tão errado. É sempre a mesma história: 'somos apenas amigas', e tal. Isso quando não dá certo. Oh, Fernanda... se você soubesse o tamanho da saudade de que sinto de você. Se soubesse o buraco que foi feito em mim quando nos separamos. Me sinto completamente vazia. Não quero, não gosto, de admitir isso, mas é verdade. 
    Eu queria nunca ter te conhecido. Assim eu não sofreria assim. E você, se estiver sofrendo também, não sofreria. Destino desgraçado." - E assim foi o começo do dia em que Alice e sua mãe saíram para procurar um bom colégio para ela.


    Não demoraram muito, encontraram um colégio católico, porém nada radical, próximo ao centro da cidade, e mais importante ainda: perto da casa de Alice. Nem tanto. Ficava ainda a aproximadamente 9 quarteirões de casa, mas o suficiente para ir a pé.
    Era época de soma de notas do primeiro trimestre naquele colégio. Alice e sua mãe subiam as escadas do mesmo, e encontravam alunos nos corredores. Alguns apressados, com medo de algum professor carrasco, outros não se importando se tinham aulas ou sequer se tinham algo para se fazer. "Que zona!" pensou Alice.

    Nos corredores Alice avistou uma menina com cabelos negros e olhos bem escuros, que contrastavam com uma pele alva e delicada. Tinha mais ou menos o tamanho de Alice, traços finos e leveza ao andar. Possuía aparência tamanha que Alice a assemelhou a um anjo. Não se apaixonou à primeira vista por aquele anjo. Pelo menos não pela pessoa, mas pelo corpo, pela aparência.
    - Que linda... - chegou a sussurrar para si. Mal sabia Alice que aquela menina, tão bonita, tão angelical, viria a ser sua colega. Sua amiga. Seu próximo amor impossível. Mas Alice havia tomado uma decisão: de que não iria mais se declarar para nenhuma garota. Nenhuma. Não importasse o desejo dela.
    Aquele anjo tinha um nome. Um nome brilhante. Bonito. Simples. Era Clara.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Noite Fria

    Primeira noite em "Beagá". Alice não ficou impressionada com a quantidade de prédios, ruas, e obviamente de poluição de uma das maiores capitais do Brasil.
    Alice sonhou com Fernanda logo na primeira noite. Lembrou que provavelmente nunca mais a veria, e não por causa da distância, mas por causa do que havia acontecido entre elas. Se sentia uma pessoa fraca ao chorar, mesmo sabendo que não o era. Não sabia explicar este sentimento. Alice gostava de chorar. Gostava de descarregar sua tristeza em lágrimas. E apesar disso ainda achava errado chorar. Achava que isso era algum sinal de fraqueza. Especialmente nos momentos em que esta vontade vem e você não esperava por ela.

    Acordou. Era seu primeiro dia em Belo Horizonte. Sua mãe ainda não havia definido um colégio para ela. Seria um dia livre. Ou quase. Combinaram de aproveitar o dia para se ajustarem ao novo apartamento, que era bastante similar ao anterior: era num prédio alto, claro, com ar "chique". Não é atoa que Alice achou a transição de ambiente bem confortável.
    Enquanto retirava suas coisas das caixas (as que estavam escritas "Coisas de Alice" somavam-se em um incrível número de apenas duas caixas) se deparou com um gato. Uma miniatura de gato. Lembrou de Mariane. "Aquela vadia" - e não pensou duas vezes, jogou o presente no lixo.

    A noite chegou. Novamente aquela noite fria. Típica da época em Belo Horizonte, com dias quentes e noites frias. Alice continuava a pensar em sua vida em Betim. Queria esquecer aquilo. Mas quanto mais tentava esquecer, mais se lembrava. Mais se lembrava de Mariane e os problemas que ela lhe causara. A dor que lhe causara. Se lembrava ainda mais de Fernanda. E a dor que as duas sofreram, mas que Alice ainda achava que sofria mais. E sofria mesmo. A alguns quilômetros dali Fernanda dormia tranquilamente, sem nenhum peso na consciência, de alguma forma.
    Alice ficava impressionada com as pessoas, e pensava que conhecia Fernanda. Mas se soubesse que remorso nenhum sobrou, ficaria mais triste. Mais que o normal.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Mudanças

    O fim de março já chegava, e nem Alice conseguia acreditar que tanta coisa havia ocorrido em sua vida até aquele dia. Sua vida era diferente de outras meninas, é claro.

    - Alice!
    - Oi?
    - Tenho uma surpresa para você querida! - gritou Verônica ao entrar no apartamento, pela sala.
    - Que é? - Alice perguntava com o ânimo de um robô em depressão.
    - Nossa, que ânimo eim! Bom, não sei como vão as coisas no colégio para você mas...
    - Vão ruins, como sempre, se pergunta sobre meus amigos. As notas você sabe, só não estou bem nas exatas.
    - Bom, sim. E acho que você ficará feliz em saber que fui promovida no trabalho.
    - Que bom mãe - Alice tentava, mas não conseguia de forma alguma demonstrar alguma emoção com aquela notícia. Para falar a verdade nem se importava com o trabalho de sua mãe. O simples fato de ter comida, uma casa, saúde e uma boa educação já eram o suficiente para que ela não se preocupasse com isso. - mas por que você disse que eu ficaria feliz? Você só diz isso quando é algo que me deixa realmente feliz.
     - Vamos nos mudar, Alice. - fez-se silêncio
     - Quê?
     - Você vai ver, vai ser bom para nós duas. Vamos começar uma nova etapa em nossas vidas, podemos começar do zero, o que acha?
     - E-Eu... acho legal. - Alice não se importava. Ficar em Betim* ou não já não era mais importante para ela. E se pudesse começar do zero, não teria nada a perder.

     Começaram a embalar seus pertences. Mãe e filha, juntas. Em uma semana já estavam longe dali. Longe dos problemas. Longe do passado. Longe de Mariane. Longe de Fernanda. E é claro que Alice ainda sentia saudades de Fernanda.

 ____________

*Betim é um município brasileiro do estado de Minas Gerais e faz parte da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

[Quase] Curada

    As manhãs passavam. As tardes passavam. As noites passavam. Eram todas iguais para Alice.
    Tudo ia tão bem, e agora sua vida parecia que havia sido mecanizada novamente. A felicidade de antes não mais existia. O brilho de seus olhos se esvaiu quase completamente. Só faltava o brilho da esperança, que nem ela sabia que ainda possuía. Sua vontade de viver se foi. Não havia mais prósito naquilo tudo. Pra quê ir ao colégio? Para que comer? No final o resultado será o mesmo: a morte.

    As semanas passaram. A ferida aos poucos era curada. Cada dia era mais um ponto cicatrizado. Alice voltou a ser o que era antes de Mariane e Fernanda. Voltou a ser uma menina aparentemente normal. Por enquanto.

sábado, 1 de maio de 2010

Absolutamente nada dura [para sempre]

    Fernanda subia as escadas que haviam na entrada do colégio. Tudo parecia estar acontecendo em câmera lenta para Alice. Conseguia ver todos os detalhes de tudo que estava ao seu redor, mesmo que não lhe importassem naquela hora.
    Seu amor estava a usar um tênis branco, com detalhes em azul. Uma calça jeans velha, mas bem cuidada, a blusa do uniforme, que estava cheia de respingos d'água nos ombros, por causa da chuva. O cabelo longo de Fernanda estava preso por um elástico preto, e ela usava brincos de argola de tamanho médio. Não era algo que chamava muito a atenção.

    Fernanda corria para subir as escadas. Corria com a cabeça baixa, e por isso não viu Alice ali, parada. Quando saiu da chuva e entrou na portaria do colégio as duas se viram.

    - Fêr? - perguntou Alice, quase gaguejando.
    - Alice, por favor...
    - Não Fernanda, por favor me deixe falar. - Fernanda estava começando a falar, mas não continuou. - Eu sei o que aconteceu. Mariane não devia ter feito isso. Mas por favor, eu não quero, eu não consigo enfrentar isso sozinha. Por favor...
    - Me desculpe... mas não sei se consigo, se quero continuar com isso. - a bomba estava lançada. Alice sentiu um calafrio. Uma dor no coração. No instante que seu cérebro processou esta frase seu coração parou por um segundo. Tudo parou.

    Fernanda continuou andando e entrou no colégio. Alice ficou parada na portaria, encarando o nada por algum tempo.

    Alice não conseguia acreditar. Pela primeira vez havia encontrado a felicidade. Pela primeira e única vez até aquele dia. Tudo foi estragado por causa de uma única pessoa. Um único sentimento estragou aquilo tudo: a inveja.
    Mariane sentia inveja de Fernanda. Os garotos do colégio tinham uma certa queda por ela, assim como tinham por Alice. Tinham. Agora não têm mais, e tudo por causa de uma fofoca. "Que filha da puta", pensou Alice. Queria ficar com raiva, apenas raiva. Mas a tristeza naquele momento era muito grande.
    Sentou num dos degraus da escada. Não conseguia fazer nada. Queria ir para casa e esquecer aquele pesadelo. Queria acordar e descobrir que nada daquilo estava acontecendo.

    - Alô? - Verônica, mãe de Alice, atende o celular
    - M-Mãe? Vem me buscar aqui no colégio, por favor?
    - Alice? O que aconteceu?
    - Por favor! Não quero falar isso agora mãe... Por favor, venha logo... - e Alice finalizou aquela chamada.

    Verônica buscou Alice no colégio sem dizer uma palavra até chegarem em casa.
    - É sobre Fernanda, não é?
    Alice não conseguia falar. Só fez que "sim" com a cabeça.
    - Meu bem, sinto muito. Muito mesmo. Vamos subir, não vamos fazer nada hoje. Vou ligar para o serviço e dizer para meu assistente me substituir hoje.
    "Obrigada." E essa foi a última palavra de Alice naquele dia.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Preparação II

   No instante que Alice saiu de casa, olhou para o céu. Havia uma parte cheia de nuvens cinzas, que ficavam mais escuras com a distância, e a outra parte estava limpa, completamente sem nuvens. Coincidência ou não, a parte limpa estava sob sua casa, e a parte escura estava no caminho para o colégio.
   Alice estava no meio do caminho. De repente começa a chover. Não ligou muito para isso, já que estava apenas começando. "Dá tempo de chegar no colégio", pensou. Mal terminou de pensar nisso e já começou a chover forte. Exatamente como ela não havia previsto.
   O pior da chuva naquele dia era que Alice não estava com seu guarda-chuva. Não estava com sua mochila. Não carregava nada consigo além de sua carteira e seu celular. Usava o uniforme do colégio, mas não iria participar da aula.

   Chegou ao colégio encharcada. A chuva fez parecer que ela acabou de sair de um banho estando completamente vestida.

   Alice notou que a portaria do colégio estava quase totalmente vazia. Só havia ela e dois dos porteiros. Lembrou que sempre chegava antes de todos no colégio, e que Fernanda geralmente chegava atrasada.
   Alice achou melhor esperar por Fernanda. Resolveria aquilo até mesmo fora do colégio. Essa ideia não faria diferença para muitas pessoas, mas acabou agradando muito a ela.

   Esperou. 15 minutos depois Alice avistou o carro da mãe de Fernanda. Quando ela desceu do veículo Alice sentiu um aperto no coração. Um susto. O medo.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Preparação

    Chegou em casa. Alice não queria saber de praticamente nada naquele momento. Só queria saber de Fernanda, e como as coisas terminariam. Não ligava para Mariane, para seus colegas. Nada disso.
    Nem mesmo sua mãe foi capaz de entender o que se passava, de tão rápido que Alice correu para seu quarto.

    Alice sentou em sua cama. Ficou encarando o chão. Depois seus tênis brancos com alguns poucos detalhes em rosa, que já estavam aos poucos sendo desgastados pelo tempo de uso. Era um daqueles momentos estranhos em que nosso cérebro parece que para de funcionar. Como que para aliviar um pouco a situação.
    Não percebeu por quanto tempo ficou parada sem lembrar no que pensava. Só se lembrava que ao chegar em casa o céu estava laranja, os postes das ruas já estavam sendo acesos, e que agora já estava escuro. Não havia passado tanto tempo.

    Foi difícil dormir.

    No dia seguinte acordou sem vontade de ir ao colégio. Não era medo dos olhares dos colegas, mas medo de ver Fernanda. "Que bobagem...", pensava. Ela mesma sabia que uma hora deveria encarar isso, mas tinha medo de ficar triste. Alice começou a pensar nisso.
    "Medo de ficar triste." Lembrou de quando alguns colegas a viam triste e perguntavam "você tem medo de ser feliz, Alice?" e ela respondia que não, e que tinha vontade de responder "não. Mas tenho medo de ser triste", mas não o fazia. Talvez por preguiça, talvez por medo da reação de seus colegas, já que ela não respondia emocionalmente igual às outras pessoas. E não era por não gostar de garotos, mas Alice realmente era diferente. Tratava as pessoas de forma diferente.

    - Mãe...
    - Sim, Alice?
    - Posso ir no colégio só durante o primeiro horário? Só para saber se vou perder algo importante hoje, porque estou me sentindo meio mal, meio enjoada, entende?
    - Hmm, claro. Mas se tiver algo importante, você ficará por lá.
    - Está bem.
    De alguma forma Alice sabia que não ia ficar no colégio por muito tempo. E sua mãe também.

    "Tudo que vou fazer é falar com Mariane, e só", pensou Alice. Deu um longo suspiro e terminou de amarrar os cadarços de seus tênis brancos com detalhes rosas.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Por que?

    - Fernanda! - gritou Alice do portão interno do colégio, para que Fernanda parasse de correr. Não obteve resposta. - Que merda! Que grande merda! - começou a reclamar.
    Alice ficou encarando o chão por algum tempo, pensando. O que fazer agora?
    Saiu da escola e foi para a casa de Mariane.

    Tocou o interfone. Quem atendeu foi a mãe de Mariane, que deixou Alice entrar. Logo percebeu que estava chateada. Não é preciso ser sua filha para notar a tristeza.

    - Hmm, Alice. Você veio ver a Mari, não é?
    - Sim.
    - Bom, ela não está em casa, ela acabou de sair.
    - Eu espero.

    Os minutos se passaram e Mari voltou para casa. Quando viu Alice sentada no sofá da sala de estar ficou sem reação. Não esperava por isso.

    - Como você pode? Como? Por que? - Mariane não falou nada. - Sabe... eu estava, pela primeira vez nessa maldita vida começando a ser feliz de verdade - sua voz já estava abafada, olhos mais brilhantes que o normal por causa das lágrimas iminentes. - e agora, não sei o que vai acontecer, e tudo por sua causa! - Fez-se um longo silêncio. - Por que?
    - Me desculpe Alice, mas eu estava fora de mim, por favor, me desculpe.
    - Nunca mais olhe para mim. Por favor. - e foi em direção à porta.
    - Por favor, Alice! Deixe-me explicar!
    - Não tem nada para explicar! - e foi-se.

    No caminho de volta para casa começou andando. Alice e seus maus pensamentos, como antigamente. Não gostava disso. Pensava em Fernanda. Pensava em si mesma. Pensava como iria encarar aqueles olhares todos os dias. Pensava se isso duraria todos os dias. Pensava em como Fernanda reagiria. Será que ela abandonaria Alice naquela escola? Doía pensar nisso.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Fofoca

    "O que é bom dura pouco"

    Terça-feira de manhã. Tudo estava normal para Alice e Fernanda. Mas quando dizemos normal, queremos dizer o normal delas, e não o normal da maioria das pessoas. O dia começou assim como as últimas terças-feiras. Foram para a escola.
    Chegaram ao portão da escola. Se encontraram pela primeira vez no dia. Assim que se avistaram, se sentiram felizes novamente. Como quem vê na sua frente um bom motivo para sorrir, e continuar lutando para ser feliz. Para continuar vivo. Para encontrar na felicidade do outro a própria felicidade. Mas além desse sentimento, havia mais alguma coisa. Algo ruim.
    Alice e Fernanda podiam sentir olhares estranhos voltados para elas. Era aquela sensação que elas nunca esperariam, já que não demonstravam seus sentimentos no colégio, justamente para evitar isso.
    - Alice, o que está acontecendo? - perguntou Fernanda
    - Não sei Fêr, você também não sabe?
    - Não. - Nessa hora o coração de Alice deu um salto. Estavam ela e Fernanda andando pelos corredores, sentindo os olhares de desprezo dos outros alunos de outras turmas.

    Chegaram na sala. Seus colegas estavam conversando e fazendo bagunça na sala, aproveitando o tempo que tinham antes dos professores se dirigirem às salas. Alguns brincavam, outros conversavam, outros faziam o dever que haviam deixado de fazer no dia anterior. Haviam também alguns que tentavam fazer os três ao mesmo tempo. E falhando, obviamente.
    Elas entraram. Fez-se silêncio. Alice procurou pela única pessoa que poderia ser responsável por isso, já que o motivo já era conhecido. "Só pode ser ela." pensou. "Mas por que?" Essa pergunta ficou em sua cabeça durante todo o dia. 
    Foi um dia quieto. Até mesmo os professores notaram isso. Mas eram professores. Não faziam parte do vínculo de comunicação social dos estudantes, então não sabiam de fofocas (e nem pareciam estar interessados, já que ficaram bastante contentes com a quietude da sala).

    Ao final do dia Alice já tinha certeza de uma coisa: sabia do porque Mariane não ter ido à aula.

domingo, 25 de abril de 2010

Encontro

    Alice estava feliz. Chegou em casa com uma felicidade tão grande que nem sua mãe acreditava. Fazia tempos que não via ela assim.
  
    - Ei Alice, o que aconteceu? - pergunta Verônica.
    - Mãe! Você não vai acreditar...
    E assim a mãe de Alice ficou sabendo do segredo que antes era só entre Alice e Fernanda. E antes disso era só entre Alice e sua mãe. E agora é entre as três.
  
    Os dias passaram rápido. Rápido demais. "Por que sempre quando estamos felizes o tempo passa rápido?" perguntou Alice para si mesma. Imediatamente lembrou de um texto que dizia que enquanto estamos felizes não nos importamos com o tempo. Mas quando estamos tristes queremos que o tempo passe logo, e por isso temos a sensação que ele não passa.
    Alice havia chamado Fernanda para ir até a casa dela, ver um filme. Um filme nada romântico, para falar a verdade. Era "Avatar" de James Cameron. Alice adorava este filme. Chorava todas as vezes que o assistia. Tinha o visto três vezes nos cinemas, e alguns dias atrás ele foi lançado em disco digital de vídeo (DVD). Não perdeu tempo e locou o filme na locadora mais próxima de sua casa.

    Era uma tarde de sexta-feira. Não haviam nuvens no céu. O dia estava perfeito, apesar de um pouco quente. "Ah, esse aquecimento global..."

    Fernanda tocou o interfone. Alice atendeu e abriu o portão.
    Alice morava num prédio que seus colegas consideravam chique para os padrões de sua sala. Era um prédio alto, com cerca de 23 andares. Branco, com algumas vidraças azuis no térreo. Era um prédio realmente bonito, e com uma aparência chique que Alice não conseguia ver.

    Fernanda subiu pelo elevador. Alice a esperava na porta do apartamento.

    Saiu do elevador. Se viram. Se lançaram uma à outra. Se beijaram.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Não estou Só

    - Alice, você é minha melhor amiga, e eu não tenho ninguém mais para contar isso...
    - O que é, Fer? Fale, por favor, estou preocupada!
    - Alice, eu gosto de mulheres. - O mundo parou. De repente tudo parou para Alice. Milhares de coisas vieram à sua cabeça naquele momento.

    Alice se lembrou de várias festas da qual foi com Fernanda durante esses meses. Não tinha parado para pensar nisso antes, mas em todas as festas ficou conversando com Fernanda. Não fizeram praticamente mais nada, além de conversar e aproveitar algumas das músicas que tocavam (algumas porque Alice detestava o funk que tocava na maior parte das festas, e gostava das outras). É verdade. Alice nunca vira Fernanda se envolver com nenhum rapaz, durante meses. Algo que julgava incomum para as garotas de sua idade.

    - Alice? - Chama Fernanda. Neste momento, Alice toma uma expressão de tamanha surpresa que parece estar hipnotizada.
 
    Nada a ser dito. Alice dá um salto para cima de Fernanda, a abraça. Fernanda corresponde.

    - Eu devia ter percebido antes, Fêr... Eu compreendo. Compreendo mesmo, como ninguém.
    - Como pode? - Fez-se uma pausa.

    - Eu sou como você, oras... - Alice dizia isso de uma forma natural, à vontade. Pela primeira vez não se sentiu realmente incomodada ao falar isso com alguém. Quando contou este segredo para Mariane, se sentiu um pouco perturbada, constrangida, mas agora não.

     Algo realmente mágico aconteceu nesse dia. E nos dias seguintes.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A Confissão

   Os dias, semanas, e meses foram passando. Fêr, como era chamada Fernanda, já ocupava a antiga posição de melhor amiga que antes era ocupada por Mariane.

    "É incrível. Parece que o tempo cura tudo. É exatamente o que meu professor de português havia dito algumas semanas atrás. Não importa o que aconteça conosco, o tempo uma hora acabará com a alegria, e também com a tristeza. Parece que alternando entre um e outro, ou os misturando...", pensava Alice naquela manhã, logo depois de ter acabado de se arrumar para ir ao colégio.

    Aparentemente seria um dia comum, se sua amiga Fêr não tivesse a chamado para encontrá-la no colégio depois da aula.

    E a tarde caiu. Alice caminhava pelos corredores até a biblioteca, onde decidiram se encontrar. Fernanda não havia lhe dito o que queria, nem o porque daquela localização. Tinha a estranha sensação de ser algo que ela esperava, alguma espécie de confissão, mas não sabia o que. Pensava que talvez seria sobre algum menino, algum problema familiar. E não era.

    - Alice, tenho que te contar uma coisa. Eu não sei como falar. É difícil, sabe? Você é minha melhor amiga, e sei que posso confiar em ti, mas é difícil falar isso, admitir isso...
    - Calma, respire fundo, acalme-se. Não tenha pressa. É algo sério? Algo sobre mim, você, ou outra pessoa? - Fernanda apontou o indicador para ela mesma.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Boas Novas

    Alice se encontrava em uma ponte suspensa. Não conseguia enxergar o que havia abaixo dela, nem onde ela terminava ou começava. Só conseguia olhar para frente. Ali estava uma garota que ela nunca havia visto. Tinha os cabelos longos e lisos, castanho claros. Era completamente diferente de todas as outras garotas que já tinha visto. Até de Mariane.
    Começou a andar para frente, para o meio da ponte. A garota do outro lado também. Quando finalmente se encontraram, ficaram encarando uma à outra com a mesma expressão de surpresa. Não era uma expressão de medo, mas de extremo carinho, apesar da surpresa. Alice sentiu que conhecia essa garota, e que ela a conhecia também.
    A garota falou "Alice". E o sonho acabou.
    "Quem era essa garota? Que sonho estranho foi esse? Caramba, estou ficando louca..." pensava Alice, quando terminara de abrir os olhos naquela manhã de terça-feira. Eram 5:30 da manhã. Trinta minutos antes da hora que costuma acordar em dias de semana. Apesar do sonho, aquela foi uma manhã normal, até chegar em sua sala.

    Se sentiu particularmente leve naquela manhã. Parecia que um peso enorme havia sumido de suas costas. Pelo menos por enquanto.

    Chegou ao colégio. Ao entrar na sala, Alice encontra uma garota desconhecida sentada na terceira carteira na fileira que ficava próxima à porta. Não demorou muito para encontrar com seus colegas e ficar sabendo que era uma aluna nova. Seus colegas não sabiam seu nome. "Só há um jeito de descobrir, certo?" Não havia entendido o porquê de estar tão alegre neste dia, mesmo com o ocorrido no dia anterior. Mas também não se preocupava com isso naquele momento. Queria aproveitar o máximo dessa boa sensação.
    - Oi!
    - Oi. - Disse a garota nova.
    - Meu nome é Alice. Qual o seu?
    - Fernanda. Prazer. - Apertaram as mãos nesse momento.

    Mariane não havia ido à aula nesse dia. Alice não parou para pensar nisso. Tinha acabado de fazer uma nova amiga. Foi para o colégio leve como uma pluma, mas mesmo magoada notou a falta de Mariane na aula, e este fato acionou seus pensamentos depressivos, que logo a puxaram para baixo. Ainda doía. "Amar dói", falava para si mesma.

    Alice achava incrível como os pensamentos influenciam diretamente no nosso humor. O simples fato de você pensar em algo te levava a lembrar de fatos, e consequentemente de sentimentos que sentia na hora. Quando Mariane rejeitou seu convite para a quadrilha foi um sentimento ruim, que magoava, que a rasgava por dentro, mas durante o sonho, com a garota que nunca tinha visto, sentiu-se alegre, leve, restaurada, como há muito não sentia.

    Enquanto voltava para casa, lembrou de seu sonho, e lembrou também de Fernanda. Era estranho como as duas garotas entraram em sua vida no mesmo dia, apesar de não estarem diretamente ligadas à ela antes. Não havia parado para pensar nisso antes, mas as duas garotas eram parecidas. Não eram idênticas, mas quando se aproximou de Fernanda sentia que, de alguma forma, já a conhecia, assim como a garota de seu sonho. Contudo, eram diferentes. Subitamente Alice lembrou do que havia ocorrido nos dias anteriores, e lembrou de como as coisas funcionam no mundo real. Imediatamente parou de flutuar na felicidade, e caiu. Voltou ao normal. Voltou a ser a Alice que sentia ser a única pessoa daquele jeito no mundo, mesmo sabendo que não era.

    Já estava em casa antes mesmo que se lembrasse que estava indo para lá. Ao longo dos anos, o caminho que fazia do colégio até sua casa, e vice-versa, se tornou mecanizado. O caminho já estava programado.
    Foi fazer a lição. Abriu o livro de redação.

Como é ingênuo o amor.
Mais forte dos sentimentos.
Às vezes a pior das sinas.
Me faz sonhar com lugares que talvez não verei,
Mas eu quero que assim seja.
Eu quero continuar sonhando.

   Tudo de repente parecia estar se coincidindo demais para ser verdade. Agora até mesmo poemas de seu livro decifravam o que ela sentia. Estava cansada. Fechou o livro e foi dormir. Aproveitaria que provavelmente nesta semana não haveria aula na quinta e sexta-feira. "Só mais um dia", pensou, "e poderei descansar e botar tudo em ordem."

terça-feira, 20 de abril de 2010

A Omissão

   Alice acordou. Era final de tarde. Quando o céu está num tom alaranjado no horizonte, e o azul claro do dia se escurece, como a lâmpada do amor vai lentamente se apagando. Deu um longo suspiro, e se sentou na beira da cama. "Que dor de cabeça". Toda vez que chorava muito ficava com dor de cabeça. Alice detestava isso, e com razão. Afinal de contas, quem gosta de chorar e sentir dor de cabeça logo em seguida? "Parece até que chorar é errado, e a dor de cabeça é uma punição", era o que pensava naquele momento, antes de levantar um pouco a cabeça e perceber em sua estante um objeto metálico que estava destacado dos demais. Era um pequeno gato de metal, que tinha um "A" escrito na coleira. Mari havia lhe dado aquilo no ano passado, em seu aniversário de 16 anos. Por mais incrível que possa parecer para algumas pessoas, Alice começou a pensar em como faria uma festa de aniversário este ano, sendo que sua melhor amiga já não estaria mais disponível por um tempo [indefinido] (que nem Alice sabia o quanto ia durar).
    Não passou pela sua cabeça a conversa que tivera com Mariane na manhã daquele dia. Não queria pensar nisso, de qualquer forma. Não queria piorar sua dor de cabeça, e do coração.
    Depois de tomar um remédio para a dor, Alice se dirigiu ao computador.
    Alice gostava de acompanhar blogs. Especialmente os de humor. Mas também lia alguns textos publicados por seus amigos em seus respectivos blogs. Achava aquilo a maior perda de tempo possível para um ser humano civilizado atualmente. "Vocês nem vão conseguir visitas de outras pessoas se não aquelas que vocês enchem tanto o saco para visitarem o blog...", era um pensamento frio de se dizer para os jovens que escreviam com prazer. Por isso Alice preferia guardar estes pensamentos para si, ao invés de contar para seus amigos e colegas.

    Alguns minutos se passaram e Verônica chegou em casa. Alice ouviu sua mãe deixando as chaves na mesa, junto com a bolsa. Podia ouvir os passos se aproximarem até que...
    - Oi meu anjo!
    - Oi mãe. - Não havia um pingo de ânimo na voz de Alice.
    - Nossa, o que aconteceu? Por que está tão pra baixo garota? - Sua mãe não aparentava perceber a tristeza que estava sentindo naquele momento, mas ela percebeu.
    - Ah, uma dor de cabeça que senti quando acordei. Logo depois do colégio eu cheguei aqui e deitei, peguei no sono, e acordei com esse monstro comendo meu cérebro. - Alice não falava com dificuldade o que havia ocorrido, pois não havia nada que pudesse deixar claro o que sentia nestas frases e, de certa forma, não estava mentindo. Tudo parecia fácil, de repente.
    - Entendo. Já tomou o remédio então?
    - Ah, sim mãe. Estou melhor agora.
    - É, posso ver. Já até está lendo suas páginas na internet, não é?
    - Poisé... - Fez-se um silêncio. Alice ficou com medo de que ocorresse algo particularmente semelhante ao que aconteceu com Mariane de manhã.
    - O que quer jantar? - Perguntou a mãe.
    - Ah, tanto faz. Surpreenda-me! - Respondeu Alice, pensando rapidamente em virar o rosto, para disfarçar a cara que fez
    - Ok então. - E a mãe foi para a cozinha.
    Alice havia feito uma cara realmente intrigante quando sua mãe perguntou sobre o jantar. Não sabia se devia ficar feliz, ou triste. Pensava que sua mãe não havia percebido sua tristeza. "Isso deveria ser uma coisa boa", pensou ela, "mas por que então eu estou assim?" Se sentia decepcionada. Sim, decepcionada era a palavra que melhor descrevia o que sentia naquele momento. "Será que ela não percebeu mesmo como estou ou ela fingiu bem demais hoje? Ah... esquece...", e deixou este pensamento para trás. Talvez a única diferença deste pensamento para o de quando lembrava de sua conversa sobre a festa junina tenha sido que Alice conseguiu esquecer este mais rapidamente, e sem esforço algum.

    Não estava feliz. E aquela noite passou como uma noite qualquer. Fez a lição para o dia seguinte, e dormiu.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Queda

    Alice estava tensa. A aula havia acabado e todos saiam da sala. No final só restaram ela, Mari e algumas outras pessoas da classe, que já estavam se encaminhando para fora da sala. Ela sentiu calafrios só de pensar em ficar a sós com Mari. Pela primeira vez, em tanto tempo, sentiu medo de estar com uma pessoa que amava. Sentia medo de ouvir aquilo que não queria.
    - Alice?
    - Ei Mari. Nem conversamos direito hoje, não é? - Alice fez um comentário direto. Ela não fazia muito o tipo que fica enrolando conversas. Apesar de tímida, era bem objetiva.
    - Bom, poisé. É que... Bom, não sei como dizer isso, mas sei lá... Sobre a festa, eu... - E fez-se uma pausa.
     Alice sentia seu coração pular. Era como se estivessem torturando ela. Como se estivesse com uma grande falta de ar, se afogando em seus próprios sentimentos, e como se não conseguisse sair daquele mar profundo...
     - Eu não sei se vamos poder dançar juntas. Quero dizer... Eu te entendo, e olha, não me importo. Mas é que ficaria mal para mim, para nós, entende? - "Não, não entendo", era o que Alice queria dizer, mas não disse.
     - É... bom, eu já estava pensando nisso também, e acho que concordo. Então vamos deixar passar, certo? - Doía mentir assim. Ela já sentia seus olhos pulsarem, quase começando a arder. - Bom, tenho que ir, até amanhã Mari. - E assim se despediu de sua amiga.
     Alice partiu. Percebeu, antes de sair da sala, que Mari soltou um longo suspiro e que continuou guardando seu material, o que lhe deu tempo para, dali a pouco, chorar. Antes mesmo de descer as escadas. Não suportou. Correu, não importando com quem estivesse a sua frente, pois ela desviaria. Faria de tudo para sair daquele lugar o mais rápido possível, e chegar ao conforto de seu quarto, onde sabia que podia ser ela mesma sem se preocupar em ser magoada.

     Foi a volta para casa mais rápida que Alice já fez. Logo quando chegou em casa seu rosto já havia melhorado um pouco. Estava com as faces rosadas por causa do desespero (e cansaço, pois veio num ritmo muito acelerado para casa). "Minha mãe não está em casa, ótimo!", pensou. Não estava realmente feliz em esconder este acontecimento de sua mãe, mas sentia que de alguma forma seria o melhor. É. Seria melhor não contar para sua mãe. Assim causaria menos preocupações.
     Não se importou com a casa. Jogou a mochila no sofá e correu para o quarto, se trancando lá dentro. O máximo que fez foi tirar o tênis, e logo depois disso caiu na cama, abraçou o travesseiro, e não teve mais forças para continuar acordada. Dormiu.

Dúvida

   Chegou na porta do colégio. Era um edifício grande, que não chegava a ocupar um quarteirão inteiro, mas era bem alto, tinha 5 andares. Tinha composto um poema para a aula de redação. Era sobre amor, mas não tinha coragem de revelar seu segredo para ninguém, e por isso omitiu o nome da pessoa para qual a poesia era dedicada.

Sinto este amor que abraça sem tocar
E tantas vezes toca sem abraçar.
Um amor que não vai longe
Estando tão enraizado em mim.

E que não segue confiante
E que vive de esperanças.
Um amor que não é firme
E que não tem chão para pisar

E que luta para continuar a ser
Sem estar em guerra e nem morrer.
Sentimento que vive não apenas o hoje
Mas também o possível futuro

Como se amanhã fosse existir
De uma forma diferente
Um amor que se manifesta em tudo

Desde o que sonho, até em meu respirar.
É simplesmente este o meu modo de amar.


    Alice não admitia para seus colegas, mas era realmente boa em poesias. Especialmente nas que se retratava o amor. Aquele amor quente. Aquele amor melódico. Aquele amor tão suave, tão carinhoso, incondicional. Aquele amor amor, de quando você acaba por deixar que a felicidade da pessoa amada se torne parte de sua felicidade.

    Subiu as escadas. Caminhou pelos corredores bem iluminados. No caminho percebia alguns alunos de outras turmas fora das salas, conversando antes da aula começar. Alguns apenas conversavam, já outros trocavam leves carícias. "Os famosos casaizinhos..." pensava Alice, que ao passar por estes começava a sorrir, imaginando como seria ela e sua amada. "Seria tão perfeito, tão diferente, tão..." e parou de sorrir. É verdade, as chances de este sonho acontecer eram pequenas. "Mas não impossíveis." Tentava ter pensamentos positivos, o sorriso voltava de repente, e sumia com a mesma facilidade.
    Chegou à sua sala. Número 304. Viu no mural próximo à porta o aviso da diretoria:

Últimas chamadas para a quadrilha para a Festa Junina!
Inscreva-se até o dia 20 de Maio!

 
   - Merda! - rangeu Alice.
   - O que foi amiga? - perguntou Mari. Neste momento Alice virou-se e viu o lindo rosto moreno de Mari, com aqueles cabelos castanhos lisos, muito bem cuidados. Gaguejou.
   - É-é q-que...
   - Ah! A quadrilha, já havia me esquecido.
    Fizeram uma longa pausa. As duas se encaravam. Uma esperava a outra dar continuidade à conversa.
    - É, bom... vou lá me sentar.
    - Tá bom, até daqui a pouco.
    Alice se dirigia até sua carteira, processando toda a informação que acabara ser enviada até seu cérebro. O mundo parecia ter parado. Foram tantos pensamentos em tão poucos passos até seu lugar. Foi tanta coisa que sentiu que quando sentou em seu lugar parecia que estaria grudada lá pelo resto da aula. "Ela percebeu que eu gaguejei, droga!", foi um de seus pensamentos. "E ela? Por que não disse nada?", e outro. "Será que ela vai dizer que não vai, inventando uma desculpa qualquer, ou será que ficou sem graça e vai comigo?" Tais pensamentos não deixaram Alice se concentrar durante os 6 horários de aula, de 50 minutos cada. Por sorte nesse dia não havia muita matéria a ser dada pelos professores, e nem ela estava com dificuldades em alguma para se importar com isso.

domingo, 18 de abril de 2010

Segunda Chance

    Alice abre os olhos. Consegue sentir o bom cheiro de seu travesseiro que fora lavado no final de semana por sua mãe. Além disso, ouve o despertador tocar. "Que droga". Este foi o primeiro pensamento do dia.
    É inevitável. Desde que começou a acordar às 6 da manhã para ir para o colégio Alice percebeu que segunda-feira é o pior dia da semana. Quando não se acorda com preguiça demais para se levantar, geralmente tem-se um pouco de motivação para tal e também uma bela dor de cabeça para atrapalhar o dia.

     Foi para o banho. Ao sair percebeu que provavelmente hoje Mari lhe daria algum retorno sobre a quadrilha de festa junina. Ou melhor, isso se ela se lembrasse, pois os dias anteriores foram muito tensos para Mari. E para Alice.
     Ao terminar de vestir o uniforme do colégio, Alice lembrou que havia colocado algumas músicas novas em seu iPod Nano rosa. Dentre elas a música "So What", da cantora Pink. Alice realmente havia gostado dessa música, e não só pelo ritmo, mas também porque é a música que tocou em um dos episódios de sua série sobre investigações preferida: Castle.
    Desceu correndo as escadas e saiu em direção ao colégio. Que se seguia basicamente em linha reta até sua casa. Eram aproximadamente 5 quarteirões. Não era muito para uma garota saudável e em forma como Alice, que seguia o mesmo caminho duas vezes ao dia, durante cinco dias por semana, quatro semanas por mês e aproximadamente 38 semanas por ano.
    Durante o caminho que fazia, não conseguia deixar de pensar em Mari.

"Mari, Mari, Mari, linda Mari." Pensava. "Um dia quem sabe...", e baixava a cabeça.

O Fim do Final [de Semana]

    Domingo chegou. Alice ainda estava deitada. No momento em que abriu os olhos a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi que era domingo, e que domingo é dia de fazer absolutamente nada, ou então fazer os deveres de casa para segunda-feira. Levantou-se, deu um longo suspiro e se dirigiu ao banheiro. Pela primeira vez percebeu que seu cabelo não fica tão feio de manhã como o de outras garotas. "Como se isso me fosse algo útil" pensou ela. Lembrava da festa que havia tido na sexta-feira, logo depois da aula. Ficava triste ao pensar nisso. Lembrava que na festa estava a maioria de seus colegas, e que estavam divididos em dois grupos por causa de uma briga tosca. "Meu deus, que povo burro", dizia ela.
    O salão em que ocorreu a festa estava separado de forma bem definida. Haviam duas mesas bem grandes, e cada grupo ocupava uma dessas. Um colega de Alice comentou "nossa, isso aqui parece até uma faixa de Gaza." Infelizmente Alice não tinha como discordar disso.
    Na festa também estava Mari, a melhor amiga de Alice. Mari estava com um garoto com qual passou boa parte da festa. Alice se sentiu incomodada com isso, mas deixou passar, pois sabia que sua felicidade muito dependia da felicidade de Mari. Apesar disso, a festa ocorreu sem problemas, até o final. Mari e seu homem começaram a brigar, por algum motivo que Alice desconhecia. Pelo que ficou sabendo, ele disse algo que magoou ela da forma que só uma garota conseguiria compreender. Ele não pediu desculpas, e assim começou a briga. No final parece que terminaram o relacionamento antes mesmo de começar o relacionamento. Mari chorou e Alice a abraçou, apoiou ela, a consolou. Fez tudo que uma boa amiga faria numa hora dessas. Mas por dentro sentia que mesmo fazendo isso ela não conseguiria o amor de Mari, porque ela era diferente. Alice teve vontade de chorar, mas conteu-se. "Tenho que ser forte para Mari agora, não posso chorar" pensou ela.

    Não foi a primeira vez que Alice foi numa festa que começou bem e terminou mal. Várias de suas colegas já tiveram este mesmo fim de Mari, e Alice reagiu da mesma forma quase todas as vezes. Quase todas as vezes porque Alice não é uma garota boa com consolos. Ela dá bons conselhos, mas vê as coisas de uma forma tão diferente que não se importa em deixar passar algo que é, para muitas pessoas, algo sério. Para ela não significava nada. E quando algo não significa nada para você, é melhor não se envolver.
    "Pelo menos agora ela está sozinha...". Foi a única coisa que Alice conseguiu pensar antes de lembrar como este tipo de pensamento afasta as pessoas dela.

    Tudo indicava que o dia seguinte seria melhor, apesar das aulas. Alice realmente detestava ter aulas. Detestava deveres de casa. Detestava tudo que era obrigada a fazer. Ela procurava entender o porque das escolas brasileiras não serem iguais às escolas do exterior, onde não é são as notas individuais que fazem o aluno, e sim seu desempenho como um todo. "Merda de país", pensava.
    Alice fez sua lição de química para segunda, e se arrumou para dormir. Dormiu.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Primeira Noite

     Foi um sábado de ócio puro. Isso quer dizer que foi, basicamente, mais um sábado comum para Alice. Ela havia se tocado no final da noite, enquanto olhava para o teto de seu quarto, que Mari não havia lhe dado um retorno sobre a festa. Começou a pensar sobre isso. "Merda" pensou, e uma lágrima pequena e tímida começou a escorrer pelo canto de seu olho esquerdo, enquanto sua face permanecia a mesma, olhando para o teto. Ela estava paralisada, com medo da pior coisa que poderia ocorrer: perder sua única verdadeira amiga.

Primeira Manhã

     Cedo, logo de manhã. Eram aproximadamente 9:30 da manhã de um sábado e Alice não tinha vontade de acordar. Estava chateada demais com o ocorrido no dia anterior durante a aula, quando determinariam os pares para a festa junina de seu colégio. De longe Alice parecia uma garota normal, mas não era como as outras. Ela gostava de outras mulheres, e não de homens. Era exatamente por isso que estava chateada naquela manhã em especial.
     O dia anterior tinha tudo para ser mais uma sexta-feira típica na vida de Alice. Uma sexta-feira chata, como todas as outras. Mas não foi. Naquele dia uma das garotas que trabalhava no colégio chegou até a sala de Alice para anunciar as inscrições para as quadrilhas da festa junina de seu colégio.
     "Vamos passar uma lista, e nela vocês devem colocar seus nomes" disse a garota que veio com a lista. Alice naquele momento sentiu um calafrio, porque não sabia que as chamadas para as quadrilhas viriam tão cedo. Ela pensava que teria mais tempo para chamar sua amiga, que estava com dúvidas se dançaria ou não. Alice tinha todo um plano traçado em sua mente, no qual insistiria e até seria capaz de apelar para o lado emocional, mas agora estava tudo perdido. Ela teria de resolver aquilo tudo programado para semanas em uma única manhã.
     "Mari..." começou Alice. "Você gostaria de... hmm... d-dançar comigo na quadrilha?". Até gaguejou. Mari ficou chocada com o pedido, disse que iria pensar, e responderia no final da aula. "Por que as pessoas nunca falam 'não' de uma só vez? Seria tão mais fácil. Parece que as pessoas gostam de nos deixar ansiosas só para nos ver desabar no final" pensava Alice.
     Mari era a única melhor amiga de Alice. Outras pessoas seriam classificadas mais como colegas, e às vezes nem isso. Alice era uma pessoa muito seletiva com relação às amizades. Havia conhecido Mari no primeiro dia de aula, quando tiveram que formar uma dupla para uma dinâmica que o professor propôs. Logo ficaram amigas, e depois disso melhores amigas. Alice contava tudo para Mari. Tudo mesmo. Até o que era. Mari estava ciente o tempo todo de como Alice se portava diante de outras garotas, e não se importava com isso. Mari dizia "oras, se você gosta disso, disso e disso, porque não te deixar em paz e te tratar como uma pessoa normal? Isso é ridículo, sabe? Discriminação de merda." Alice gostava muito de Mari por causa de sua atitude, que não era preconceituosa, e talvez por isso desejasse tanto que a amizade que tinha com Mari não fosse somente amizade. Alice queria mais. E mais...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Alice

     Alice é uma garota de 16 anos que vive com a mãe, pois seus pais são separados. Alice tem cabelos curtos e negros como o ouro negro. Tem a estatura de uma típica adolescente de 16 anos, que é um pouco mais baixa que os garotos de sua turma, mas um pouco mais alta que suas colegas. Sua mãe, Verônica, se parece muito com ela, mas possui olhos castanhos mais escuros que os de Alice, que são castanho claros. O pai de Alice também tinha olhos castanhos claros, mas isso antes de falecer. Alice tinha 3 anos quando isto ocorreu.

     Alice tem tudo para ser uma garota normal, se não fosse seu gosto que difere das garotas de sua idade. Mais tarde estes viriam a lhe causar problemas.