segunda-feira, 19 de abril de 2010

Dúvida

   Chegou na porta do colégio. Era um edifício grande, que não chegava a ocupar um quarteirão inteiro, mas era bem alto, tinha 5 andares. Tinha composto um poema para a aula de redação. Era sobre amor, mas não tinha coragem de revelar seu segredo para ninguém, e por isso omitiu o nome da pessoa para qual a poesia era dedicada.

Sinto este amor que abraça sem tocar
E tantas vezes toca sem abraçar.
Um amor que não vai longe
Estando tão enraizado em mim.

E que não segue confiante
E que vive de esperanças.
Um amor que não é firme
E que não tem chão para pisar

E que luta para continuar a ser
Sem estar em guerra e nem morrer.
Sentimento que vive não apenas o hoje
Mas também o possível futuro

Como se amanhã fosse existir
De uma forma diferente
Um amor que se manifesta em tudo

Desde o que sonho, até em meu respirar.
É simplesmente este o meu modo de amar.


    Alice não admitia para seus colegas, mas era realmente boa em poesias. Especialmente nas que se retratava o amor. Aquele amor quente. Aquele amor melódico. Aquele amor tão suave, tão carinhoso, incondicional. Aquele amor amor, de quando você acaba por deixar que a felicidade da pessoa amada se torne parte de sua felicidade.

    Subiu as escadas. Caminhou pelos corredores bem iluminados. No caminho percebia alguns alunos de outras turmas fora das salas, conversando antes da aula começar. Alguns apenas conversavam, já outros trocavam leves carícias. "Os famosos casaizinhos..." pensava Alice, que ao passar por estes começava a sorrir, imaginando como seria ela e sua amada. "Seria tão perfeito, tão diferente, tão..." e parou de sorrir. É verdade, as chances de este sonho acontecer eram pequenas. "Mas não impossíveis." Tentava ter pensamentos positivos, o sorriso voltava de repente, e sumia com a mesma facilidade.
    Chegou à sua sala. Número 304. Viu no mural próximo à porta o aviso da diretoria:

Últimas chamadas para a quadrilha para a Festa Junina!
Inscreva-se até o dia 20 de Maio!

 
   - Merda! - rangeu Alice.
   - O que foi amiga? - perguntou Mari. Neste momento Alice virou-se e viu o lindo rosto moreno de Mari, com aqueles cabelos castanhos lisos, muito bem cuidados. Gaguejou.
   - É-é q-que...
   - Ah! A quadrilha, já havia me esquecido.
    Fizeram uma longa pausa. As duas se encaravam. Uma esperava a outra dar continuidade à conversa.
    - É, bom... vou lá me sentar.
    - Tá bom, até daqui a pouco.
    Alice se dirigia até sua carteira, processando toda a informação que acabara ser enviada até seu cérebro. O mundo parecia ter parado. Foram tantos pensamentos em tão poucos passos até seu lugar. Foi tanta coisa que sentiu que quando sentou em seu lugar parecia que estaria grudada lá pelo resto da aula. "Ela percebeu que eu gaguejei, droga!", foi um de seus pensamentos. "E ela? Por que não disse nada?", e outro. "Será que ela vai dizer que não vai, inventando uma desculpa qualquer, ou será que ficou sem graça e vai comigo?" Tais pensamentos não deixaram Alice se concentrar durante os 6 horários de aula, de 50 minutos cada. Por sorte nesse dia não havia muita matéria a ser dada pelos professores, e nem ela estava com dificuldades em alguma para se importar com isso.